Solidariedade, proximidade e participação

Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul (RS)

 

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! As chuvas que caíram de forma desproporcional no Rio Grande do Sul, no início deste mês de setembro, causaram muita destruição numa boa parte do nosso Estado. Como em qualquer fenômeno da natureza, tudo o que vem em excesso também acaba gerando sofrimento. Tivemos perdas de vidas e milhares de famílias perderam suas casas, com todos os seus pertences. Em geral, a casa é um patrimônio que foi constituído ao longo de muitos anos de trabalho, de economias e sacrifícios, para ter um lugar para morar, criar os filhos e poder ter uma velhice serena, no convívio dos familiares e vizinhos da comunidade. Mas muitos, além de perderem a casa e seus pertences, perderam também os vizinhos, o espaço de encontro e celebração da vida de fé em comunidade. Outros perderam os empreendimentos, que eram também o local de trabalho. 

Toda essa destruição, perdas e dor, talvez quase não é sentida por quem não foi atingido, ou não tem sensibilidade pela dor do outro. Podemos ver os efeitos da destruição pela televisão, acomodados no sofá, e ter a sensação de que eles estão acontecendo lá muito distante. Não nos atingem, não nos comovem, porque estão acontecendo com os outros. Neste sentido, o sofrimento dos outros pode ser uma notícia incômoda, que chega às nossas vidas pelos meios de comunicação social. 

O que vimos, no nosso Estado, depois dessa grande enchente, foi uma grande mobilização de solidariedade e caridade por parte das pessoas, empresas, entidades de classe, Igreja, etc. Podemos dizer que foi uma grande mobilização de amor ao próximo, a que sofreu com as enchentes e continua sofrendo para recompor a vida, a partir da destruição, da lama e das perdas. O apoio de nossa parte para ajudar as pessoas que estão recomeçando a reconstruir suas vidas é muito importante. Além disso, a solidariedade em tempo de calamidades faz com que o ser humano passe a valorizar ainda mais o seu semelhante. Graças ao amor fraterno e solidário, à caridade e à solidariedade, vemos gestos bonitos, que nos impelem a crer e ter esperança no amanhã. 

Por isso, quero agradecer a todos os diocesanos que participaram dessa corrente de solidariedade, de amor pelo próximo. O teu gesto de partilha fez e irá fazer uma grande diferença na vida das pessoas que estão necessitadas e desamparadas. Lembrando que a caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança. 

Para finalizar, gostaria de mencionar a Carta Encíclica “Caritas in Veritate” (A Caridade na Verdade), do Papa Bento XVI, na qual ele afirma que a caridade é amor recebido e dado; é “graça”. A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (Jo 13,1), é “derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos da caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade.  

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