Ternura e firmeza na liderança

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo auxiliar de Belém do Pará (PA) 

 

“O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e sai correndo. Então o lobo ataca e dispersa as ovelhas. O mercenário foge porque trabalha só por dinheiro, e não se importa com as ovelhas” (Jo 10,11-12). Líderes sem firmeza e mercenários fogem na hora do enfretamento dos desafios! Na parábola do Bom Pastor encontramos o inseparável binômio “ternura e firmeza” no serviço de liderança do rebanho.

A missão de liderança implica muitas atitudes e atividades como aquela de orientar, governar, acompanhar processos, animar pessoas, supervisar, defender, motivar, discernir, tomar decisões, nortear, defender a verdade, promover a justiça conforme o direito.

Portanto, não há boa liderança onde não há firmeza; mas é necessário bondade, sensibilidade afetiva, serenidade, cordialidade. Ternura e firmeza não se opõem; pelo contrário, são promotoras de equilíbrio. Quando falta a firmeza na liderança acontece a perda do controle e da referência para onde se deve caminhar; quando na liderança há ausência de ternura e cordialidade, as relações interpessoais entre líderes e liderados são marcadas pela antipatia, hostilidade, rejeição.

Não há autêntica liderança sem amor

Se liderar é cuidar de pessoas, isso não será possível sem afeto, porque quem não ama não cuida! Infelizmente em nossa sociedade e, também em muitas comunidades cristãs, encontramos situações que denunciam o desequilíbrio entre ternura e firmeza dos seus líderes. A ausência de ternura pode promover desarmonia nas relações favorecendo o surgimento de medo, repressão, dureza, opressão, dominação, frieza; por outro lado, a frágil firmeza ocasiona indisciplina, desordem, descontrole, vícios, corrupção. Dessa forma, de ambos os lados, pode haver em nossas comunidades situações de injustiça, direitos ofendidos, prejuízo nas relações interpessoais. Isso vale também para a Vida Religiosa e na política em geral.

Em nossa sociedade, a ternura é, muitas vezes, entendida superficialmente como uma virtude destituída de exigências éticas! Todavia, o amor é firme, porque não compactua com a maldade e nenhuma forma de injustiça. Diz São Paulo: “O amor nada faz de inconveniente, não é egoísta, não se enfurece, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade” (1Cor 13,5-7). A liderança consequente do transbordamento do amor se manifesta através da compaixão, da justiça, de atitudes pacíficas e respeitosas.

O Amor de Deus não tolera o massacre, o sangue derramado, o direito ofendido, a escravidão. Recordemos o livro do Êxodo. Deus diz: «Eu vi a aflição do meu povo no Egito e ouvi o seu grito de dor por causa dos seus opressores. Conheço muito bem as suas angústias…» (Ex 3,7). A indignação de Deus diante da injusta liderança do Faraó, o provoca a uma decisiva resposta suscitando por meio de Moisés um longo e dinâmico processo de libertação. O firme Amor Divino promove a integridade da vida, defende o direito, restaura a dignidade, conduz à libertação.

A liderança sem a firmeza é vazia, destituída de força, robustez, coragem, ousadia, senso profético. Essa situação desperta insegurança e não promove ninguém. Um estilo de liderança sem firmeza é vulnerável e sem condições do enfrentamento de opositores e de circunstâncias adversas. A liderança desprovida do Amor se torna cega chegando a atitudes absurdas como a legitimação da violência, da ditadura, do massacre, da impiedade, e tantas outras intransigentes medidas contrárias à dignidade humana.

A ternura e a firmeza de Jesus Cristo

Jesus Cristo, o bom pastor da humanidade, sempre manifestou em seu serviço de liderança um grande equilíbrio de ternura e firmeza em suas atitudes. Observamos isso nas suas palavras e gestos para com a mulher samaritana, Nicodemos, com a pecadora acusada de adultério e seus denunciadores, com os discípulos de Emaús, com povo faminto no deserto, diante dos seus inimigos escribas e fariseus hipócritas (cf. Mt 23) e em tantas vezes com os discípulos. A firmeza de Jesus se evidencia através das atitudes como a prudência, o senso crítico, a liberdade para contestar, a correção, não se deixando manipular, denunciando males.

A relação de ternura e firmeza na liderança aparece nas palavras de Jesus quando confia ao Apóstolo Pedro o comando da sua Igreja: “Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.» (Mt 16,19). A função de Pedro é liderar e, recebendo as “chaves do Reino do Céu”, símbolo de autoridade e poder, deverá saber abrir e fechar; isso significa que Pedro, enquanto líder é chamado a ser capaz de aprovar ou desaprovar, permitir ou proibir, aceitar ou rejeitar, dizer sim ou não, concordar ou discordar no exercício da sua autoridade. Jesus ao dizer-lhe: “tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18) está indicando que a liderança eclesial é autêntica quando concorre para a edificar a Igreja.

Nos Atos dos Apóstolos a referência de firmeza são claras nas atitudes de Pedro; ele de pé, no meio dos onze, levanta a voz e fala (cf. At 2,14). “De Pé” significa uma atitude de prontidão, disponibilidade, presença altiva, firmeza de ânimo. O líder tem um papel animador, de referência, não pode estar escondido, ou timidamente presente no meio dos quais foi chamado a servir. Pedro está “no meio dos onze”; significa que o líder não é um alguém que comanda de fora, mas é um animador “no meio”, deve “estar com”. Trata-se da importância da firme presença educativa e animadora de estar entre os liderados que os acompanha com solicitude. Pedro que “levanta a voz e fala” é sinal de coragem, de consciência da sua autoridade, com seus direitos e deveres que brotam da sua missão.  O líder é chamado a não ser omisso, mas capaz de manifestar-se com firmeza, respeito, cordialidade sempre que sua missão lhe exigir.

Dimensões importantes

Quais são as fontes da ternura e da firmeza na liderança? Por que esse binômio é necessário em todos os níveis de liderança e governo? São questões importantes porque a conjugação desse binômio não brota automaticamente de uma responsabilidade assumida. Considerar a íntima relação entre ternura e firmeza na liderança e no governo é reconhecer que a mesma tem algumas importantes dimensões: a teológica, ética, pastoral e a legal.

A dimensão teológica diz respeito à convicção de fé em Deus que é uno, íntegro, pleno; Deus é amor e verdade, misericórdia e justiça, pai amoroso e justo juiz. Em Deus, como bem diz o Salmista: “amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam” (Sl 85,11). Portanto, ternura e firmeza em Deus não se separam. Deus governa o mundo com justiça, paz, firmeza, ordem, ternura, misericórdia (cf. Sl 9,1-13). Deus é poder amoroso (cf. Sl 144). Encontramos também o casamento de ternura e firmeza no magnificat (cf. Lc 1,46-56). Quem não considera a integração das virtudes divinas poderá no exercício da liderança ser injusto e agressivo, ou negligente e irresponsável, sendo capaz até de justificar erroneamente suas posturas.

A segunda dimensão para que haja o respeito à relação entre ternura e firmeza são as exigências éticas do serviço de liderança. A ternura nos fala do amor e a firmeza da justiça. Ora, há também uma relação inseparável entre amor, verdade e justiça. Onde há amor deve haver justiça e onde esta está presente é porque é fruto do Amor verdadeiro.

A dimensão pastoral nos recorda que o serviço de liderança eclesial tem como finalidade a edificação da Igreja, portanto, realizar a sua missão, promovendo o Reino de Deus. Sem a perspectiva da Salvação facilmente podemos, de acordo com as circunstâncias, assumir atitudes desequilibradas. Onde há ternura, há esperança! Pregado na cruz Jesus perdoou o ladrão arrependido (cf. Mt 27,38; Mc 15,27). Firmeza e ternura estão a serviço da Salvação.

A quarta necessária dimensão para a prática da ternura e da firmeza no serviço de liderança é a sua dimensão legal. Toda lei traz consigo direitos e deveres. A firmeza da prática da lei pela autoridade não a autoriza a cometer atos de injustiça agindo de qualquer forma. A decisão da prática da lei preserva direitos! Onde não se preserva a íntima sinergia entre “ternura e firmeza” há ofensa de direitos, rompendo a harmonia que deve haver entre direitos e deveres que contribuem com o bem-estar social. A fidelidade à exigências instituídas vai sempre exigir de todo líder o uso da razão, o bom senso, pulso firme e coração.

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:

Você acha importante ternura e firmeza na liderança?

O que acontece quando pais e líderes não se exercitam na ternura e na firmeza no cumprimento de suas responsabilidades?

Em quais outras situações você observa ternura e firmeza de Jesus Cristo?

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