Alegrai-vos e exultai!

Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Na semana que passou, foi publicada a exortação apostólica “Gaudete et exsultate” (Alegrai-vos e exultai – Mt 5,12), do Papa Francisco, sobre o chamado à santidade no mundo atual. O objetivo dessa exortação é nos lembrar de que o Senhor “nos pede tudo e, em troca, nos oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados”. Deus nos quer santos e não aceita que levemos uma vida medíocre ou superficial.

Diante dos atuais problemas políticos, econômicos e sociais, seria possível perguntarmos: de que modo a santidade poderá colaborar, para superarmos o clima de incerteza e insegurança, de pessimismo e medo que nos envolve?

A filósofa Edith Stein, martirizada numa câmara de gás nazista, em 1942, e canonizada em 1998, estava convicta de que é através dos santos que se constrói a verdadeira história: “Os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história”. Portanto, quanto mais nos santificamos, tanto mais fecundos nos tornamos para o mundo.

A santidade, “rosto mais belo da Igreja”, não é reservada a um grupo de privilegiados. Cada um de nós é chamado a ser santo. “A vontade de Deus é que sejais santos”, escreveu Paulo (1Ts 4,3). A santidade é obra do Espírito Santo. De nossa parte, cabe-nos escolher Deus como “nosso Senhor”, fazendo dele o centro de nossa vida. Em outras palavras: trata-se de viver em união com Jesus Cristo os mistérios de sua vida, associando-nos à sua morte e ressurreição.

Nosso tempo nos proporciona inúmeros meios de distração, que nos levam a dar um grande valor aos prazeres efêmeros. Em decorrência disso, empobrecem-se nossos horizontes, diminui nosso serviço gratuito e nossa disponibilidade. Entende-se, pois, porque tantas iniciativas em favor de pessoas mais necessitadas reclamam a dificuldade de contar com a ajuda de voluntários.

Dentre as muitas maneiras de se buscar a santidade nos dias atuais, chamou minha atenção o acento que o Papa Francisco dá às redes sociais e à violência verbal. Nesse campo, pode-se facilmente ultrapassar os limites, “tolerando-se a difamação e a calúnia” e excluindo-se “qualquer ética e respeito pela fama alheia”. Escondendo-se no anonimato, muitos dizem coisas que não diriam publicamente e compensam nessas redes suas próprias insatisfações e desejos de vingança. Sem piedade, destroem a imagem alheia, esquecendo-se do oitavo mandamento da Lei de Deus: “Não levantar falsos testemunhos”.

Ser santo hoje supõe, portanto, não assumir o papel de juízes impiedosos. Ao contrário: “o santo não gasta suas energias a lamentar-se dos erros alheios”, mas é capaz, sim, de guardar silêncio sobre tais defeitos, evitando a violência verbal que destrói e maltrata.

Lembremo-nos: no Juízo Final, seremos julgados pelo amor.

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26/07/2010
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