“Vicente Canãs continua inspirando indígenas na luta por seus direitos”: diz diretor

Cireneu Kuhn, padre verbita, foi o grande vencedor do prêmio Margaria de Prata na última edição dos Prêmios da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com o curta metragem “KIWKI – Memória, Martírio e Missão de Vicente Canãs”, sobre a vida do missionário indigenista assassinado em abril de 1987 no Mato Grosso. Kiwxi também recebeu a menção honrosa troféu ‘Ir. Dorothy’, tendo sido o mais votado nas redes sociais.

A cerimônia de entrega desta e das outras categorias dos Prêmios de Comunicação da CNBB, que incluem ainda as categorias de tv, rádio, impressos e internet, ocorreu na sexta-feira, 20 de julho, nos estúdios da TV Aparecida e desde o dia 25 de julho está sendo exibida nos canais de tv de inspiração católica no Brasil.

O prêmio Margarida de Prata, instituído em 1967, consolidou-se como um importante apoio à produção cultural livre do país, tem revelado nomes e confirmado diretores e produtores consagrados do cenário cinematográfico do Brasil. Ele foi concedido pela primeira vez para o filme “Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Traz” dirigido por Paulo Gil Soares, que em foi co-roteirista e assistente de direção de Deus e o diabo na terra do sol (1964) e co-roteirista e cenógrafo em Terra em transe (1967), de Glauber Rocha. Em 2001, o filme Bicho de Sete Cabeças, da diretora Laís Bodansky, foi agraciado com a estatueta.

Segundo o diretor, o filme nasceu de um pedido feito pela Signis – América Latina e Rede Pan-Amazônica (Repam), que estão coordenando a produção de uma série de documentários sobre os Mártires da Amazônia. “Me senti extremamente lisonjeado pelo convite e posso dizer que foi uma experiência maravilhosa fazer este documentário e conhecer de perto, por meio dos testemunhos, esta pessoa extraordinária que foi o Vicente Canãs e sua doação e testemunho evangélico”, disse.

Apesar de sentir-se lisonjeado pelo prêmio, que segundo ele tem uma história e tradição no Brasil, o diretor atribuiu a honraria a um trabalho coletivo: “Este troféu pertence a muita gente. Foi feito por muitas mãos, cabeças e corações”, disse.

Para reconstruir a história do testemunho de Vicente Canãs, um irmão Jesuíta espanhol naturalizado brasileiro, também conhecido como Kiwi, o diretor do curta entrevistou indígenas e indigenistas brasileiros que conviveram com o mártir, bem como utilizou pesquisa de imagens em arquivos, inclusive do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo vinculado à CNBB.

Sobre o jesuíta o diretor é enfático: “O Vicente continua inspirando toda essa gente. Ele continua inspirando missionários e missionárias que desejam assumir as causas dos povos indígenas. O próprio Cimi busca inspiração em sua história”, revelou. O grande legado do irmão jesuíta, segundo o diretor do filme, foi o respeito pelas culturas indígenas, por sua religião e o fato de tê-los tratado como irmãos e irmãs, com sua maneira de inculturar-se, realmente, sem reservas. “Ele é um grande paradigma e exemplo de missão para todos nós”, afirmou.

Irmão Vicente Canãs – Já no Brasil, em 1969, o irmão Vicente e o padre Antônio Iasi, a pedido da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), foram fazer atendimento de saúde de Tapaiúnas que ainda restavam dos contatos catastróficos com as frentes de expansão no vale do rio Arinos. Manteve o trabalho até abril de 1970 e conseguiu que sobrevivessem os 40 Tapaiúnas que encontrou. Os jesuítas, em 13 de junho de 1971, mantiveram os primeiros contatos pacíficos com os Myky. Os dois missionários são fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

Em 1974, Vicente Cañas e Tomás Lisboa estabeleceram os primeiros contatos com os Enawenê-Nawê, no estado de Mato Grosso, povo ao qual Cañas passa a se dedicar no final de 1975. Cañas começou a residir entre eles em 1977, trabalhando pela preservação de seu território, com demarcação da Terra Indígena Enawenê-Nawê e por ações de saúde. Recebeu, em 1977, dos índios Myky, o nome de Kiwxi.

O Irmão Vicente Cañas foi assassinado em abril de 1987, presumivelmente no dia 6 ou 7, de acordo com o momento em que seu relógio de pulso parou. Ele estava com óculos, dentes e crânio quebrados, perfuração na parte superior do abdômen para atingir o coração e os órgãos genitais cortados ou arrancados. Seu corpo mumificado e preservado foi encontrado quarenta dias depois, próximo ao barraco que usava como pouso, no dia 16 de maio de 1987. O primeiro julgamento sobre o caso só aconteceu 19 anos depois, em 2006, e os acusados foram absolvidos. Um novo julgamento aconteceu em 29 de novembro de 2017, e o único dos acusados de organizar o assassinato ainda vivo, Ronaldo Antônio Osmar, delegado aposentado da Polícia Civil de Juína, localidade onde ocorreu o crime, foi condenado a 14 anos e 3 meses de reclusão em regime inicial fechado.

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