O Desafio da Imaculada

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

A Igreja celebra com alegria a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, verdade da fé que suscita na vida dos fiéis o caminho da santidade. Esta comemoração solene acontece no Tempo do Advento. São Paulo VI, cuja canonização ocorreu no dia 14 de outubro, justamente no dia de nossa maior celebração mariana, o Círio de Nazaré, ofereceu à Igreja, no dia 2 de fevereiro de 1974, a Exortação Apostólica “Marialis Cultus”, texto magistral a ser lido e valorizado por todos os cristãos. Assim ensinou São Paulo VI: “No tempo do Advento a Liturgia, não apenas na altura da solenidade de 8 de dezembro, celebração, a um tempo, da Imaculada Conceição de Maria, da preparação radical (Cf. Is 11,1.10) para a vinda do Salvador e para o feliz exórdio da Igreja sem mancha e sem ruga, recorda com frequência a bem-aventurada Virgem Maria, sobretudo de 17 a 24 de dezembro; e, mais particularmente, no domingo que precede o Natal, quando faz ecoar antigas palavras proféticas acerca da Virgem Mãe e acerca do Messias e lê episódios evangélicos relativos ao iminente nascimento de Cristo e do seu Precursor.

Desta maneira, os fiéis que procuram viver com a Liturgia o espírito do Advento, ao considerarem o amor inefável com que a Virgem Mãe esperou o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a prepararem-se, também eles, para irem ao encontro do Salvador que vem, “bem vigilantes na oração e… celebrando os seus divinos louvores”. Queremos observar, ainda, que a Liturgia do Advento, conjugando a expectativa messiânica e a outra expectativa da segunda vinda gloriosa de Cristo, com a admirável memória da Mãe, apresenta um equilíbrio cultual muito acertado, que bem pode ser tomado como norma a fim de impedir quaisquer tendências para separar, como algumas vezes sucedeu em certas formas de piedade popular, o culto da Virgem Maria do seu necessário ponto de referência: Cristo. Além disso, faz com que este período, como têm vindo a observar os cultores da Liturgia, deva ser considerado como um tempo particularmente adequado para o culto da Mãe do Senhor: orientação essa, que nós confirmamos e auspiciamos ver aceita e seguida por toda a parte” (Marialis Cultus 3-4).

Olhar para a Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, significa tomá-la como modelo e referência para nossa vida cristã. E revela-se muito atual considerar o fato de sua concepção imaculada, preservada que foi, em previsão dos méritos de Cristo. Vivemos tempos em que a sujeira moral, chamemos de “mácula”, se transformou em verdadeiro espetáculo, de forma que o comportamento moral baseado na retidão e na verdade, acaba ridicularizado. Justamente agora, cabe-nos tomar posição em favor do bem e da verdade, da superação da maldade e do pecado, para propor o caminho da Imaculada a todos.

A primeira atitude seja positiva. Multiplicam-se especialmente entre os jovens, a busca de retiros, caminhos de consagração a Nossa Senhora, as vocações de maior radicalidade, o desejo de seguir o Senhor de perto, o que exige o rompimento com o pecado. Ressoa muito forte no coração de tantos o propósito que se expressa assim: “Por hoje não vou vais pecar”. Amanhã se repete o mesmo e assim por diante, um dia depois do outro.

Para viver dessa forma, faz-se necessário dar o passo da prática dos mandamentos. Se amar a Deus sobre todas as coisas deixar de ser um peso e se transformar num caminho de plena liberdade, todo o resto virá como consequência. Não levantar falso testemunho, não pecar contra a castidade não furtar ou os outros mandamentos hão de se tornar nossa honra e a dignidade, o caminho da felicidade. É necessário fazer uma escolha: “Cito hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele – pois ele é tua vida” (Dt 30,19-20).

Para seguir o caminho da Imaculada, propomos que seja superada a vergonha de andar no caminho certo! Parece óbvio, mas não é difícil ouvir alguém dizendo “todo mundo faz”, e lá vai muita gente boa escorregando pelo caminho do pecado e do relaxamento. O desafio da Imaculada é ser diferente no caminho do bem, sem fanatismos, mas com coragem para não sujar as mãos e o coração com o pecado. Uma boa ajuda poder ser a amizade sincera e segura, com a coragem da advertência, quando se vê um irmão ou irmã à beira do abismo. É melhor que alguém fique de cara fechada quando repreendido com caridade do que arrasar a vida pelo caminho da maldade. Aqui, uma grande responsabilidade cabe aos pais e educadores, no sentido de oferecer primeiro o exemplo dos valores autênticos, depois a capacidade de escutar, aliada à coragem das advertências.

Na vida da Virgem Maria, resplandeceu a simplicidade, a transparência e a força do cotidiano. Falou pouco, serviu muito, foi dona de casa aquela que é a Sede da Sabedoria. Enfrentou longos caminhos para fazer o bem, enxergou a vida e a história do mundo com os olhos de Deus, foi discípula de seu próprio Filho, enfrentou, como colaboradora do Redentor, o martírio espiritual aos pés da cruz, foi modelo de oração na preparação do Pentecostes e acompanha a Igreja até o fim dos tempos, pois chegou na nossa frente.

“Em Cristo, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele, no amor. Conforme o desígnio benevolente de sua vontade, ele nos predestinou à adoção como filhos, por obra de Jesus Cristo, para o louvor de sua graça gloriosa, com que nos agraciou no seu bem-amado. Nele, e por seu sangue, obtemos a redenção e recebemos o perdão de nossas faltas” (Cf. Ef 1, 3-6.11-12). É o nosso caminho de imaculatização!

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