Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

“Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós”. (Sl 50/51) 

 

Celebramos nesse domingo o primeiro desse tempo quaresmal, iniciado na última Quarta-feira de Cinzas. O tempo da Quaresma é um convite que a Igreja nos faz a realizarmos um retiro de quarenta dias recordando os quarenta dias que Jesus passou no deserto e os quarenta anos que o povo de Deus passou no deserto até chegar a terra prometida e tantos outros eventos com o número 40 que encontramos nas escrituras.  

Durante esse tempo quaresmal somos convidados a exercer três práticas espirituais: Jejum, oração e caridade. Uma está ligada com a outra, ou seja, o jejum só terá fundamento se for acompanhado da oração e da caridade efetiva e concreta. Da mesma forma a oração só terá sentido acompanhada do jejum e da caridade. E a caridade deve ter seu fundamento na oração, e é o gesto concreto do jejum que realizamos.  

O tempo quaresmal é um período longo, são cinco semanas, iniciando na Quarta-Feira de Cinzas e indo até a Quinta-feira Santa a tarde. Somos convidados a iniciar esse tempo de uma forma e terminar de outra, ou seja, algo precisa ser mudado em nós. É um tempo forte, voltado para a penitência e oração. Somos convidados a rezar mais, além das missas dominicais procurar participar em alguns dias durante a semana, algumas paróquias inclusive promovem a missa penitencial nas madrugadas as vezes seguidas de procissões penitenciais. Outra forma de intensificar a oração é participar da Via-Sacra em especial nas sextas-feiras da Quaresma, além de procurar rezar o terço todos os dias.  

Ao longo do período quaresmal somos convidados a nos aproximarmos do sacramento da reconciliação, para celebrarmos de maneira pura a Páscoa do Senhor. A Igreja inclusive recomenda aos fiéis que se confessem ao menos uma vez por ano por ocasião da Páscoa do Senhor. Em nossas paróquias temos o assim chamado mutirão de confissões quando os padres da vizinhança se unem para ajudar a ter em uma das paróquias o confessor extraordinário. Outras formas de penitência ao longo desse tempo quaresmal é realizar o jejum, desde que tenha um objetivo, ou seja, aquilo que eu deixei de fazer será em benefício do próximo, participar de missa penitencial se houver na paróquia, Via-Sacra e rezar o terço. Conforme já dissemos a Penitência, oração e caridade caminham juntas. Lembrar que o que economizamos com as penitências deve ser depositado na coleta da solidariedade no domingo de ramos. 

A cor litúrgica durante o tempo quaresmal é o roxo, pois é um convite para a penitência e a reconciliação com Deus. Ao longo do tempo quaresmal omite-se também o hino do Glória e o aleluia, que retomam na grande vigília Pascal (o glória terá algumas exceções). Não é um tempo triste ou de luto, pelo contrário é um tempo de alegria e reflexão, pois, Jesus morreu e ressuscitou por amor a nós. Não celebramos um Deus “morto”, mas um Deus “vivo”, esse é o sentido na nossa fé.  

Trilhemos esse caminho quaresmal e busquemos tenazmente a nossa conversão diária. Amemo-nos a Deus e ao próximo como a nós mesmos e rezemos para que todos tenham moradia digna, conforme nos motiva a campanha da fraternidade desse ano.  

A primeira leitura da missa desse Domingo é do livro do Genesis (Gn 2,7-9; 3,1-7), esse trecho da leitura do livro do Gênesis retrata a criação do homem e o primeiro sopro de Deus dando vida a humanidade. Após a ressurreição, Jesus no dia de Pentecostes sopra sobre os discípulos o Espírito Santo, além dele os enviar para a missão, Ele realiza o sopro da nova criação.  

Essa leitura retrata ainda como entrou o pecado no mundo, como sempre acontece foi por desobediência humana, Deus recomendou que eles não comessem do fruto da árvore que estava no meio do jardim, mas eles acabaram comendo. Seduzidos pela serpente e atraídos pelo fruto proibido acabaram comendo.  

Após comerem do fruto da árvore os olhos deles se abriu e começaram a sentir vergonha um do outro, pois estavam nus, mas até antes de comerem do fruto da árvore eles não sentiam vergonha um do outro, pois não tinham a malícia, mas ao comerem do fruto da arvore ficaram envergonhados. Nesse período quaresmal que iniciou na última Quarta-feira de Cinzas somos convidados a vencer as seduções do inimigo e nos aproximarmos de Deus.  

O salmo responsorial é o 50 (51), que nos diz em seu refrão: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós”. O salmista eleva um salmo de arrependimento ao Senhor pelos pecados cometidos. O pecado nos deixa abatidos, tristes e longe de Deus, já o perdão nos aproxima do amor e da misericórdia de Deus.  

A segunda leitura da missa desse Domingo é da carta de São Paulo aos Romanos (Rm 5,12-19 + longa), Paulo diz que o pecado entrou no mundo através de um só homem e a humanidade foi resgatada do pecado através Paixão, Morte e ressurreição de Jesus. A morte entrou no mundo através do pecado de um só homem, mas através de Jesus Cristo entendemos que a morte não é o fim, mas é o começo de uma nova vida ao lado de Deus.  

O Evangelho da missa desse Domingo é de Mateus (Mt 4,1-11), esse trecho do Evangelho de Mateus nos diz que Jesus após o batismo foi conduzido ao deserto e sofreu as tentações. Após sofrer as tentações e vencê-las, Jesus inicia a vida pública. Jesus ficou quarenta dias e quarenta noites no deserto, jejuou e rezou muito. Por isso, celebramos a Quaresma, recordando esses dias que ficou no deserto e os quarenta anos que o povo de Deus passou no deserto até chegar a Terra Prometida. 

Somos convidados ao longo da Quaresma a ficar com Jesus no deserto, a orar, a jejuar e a vencer as tentações do inimigo assim como Ele venceu. Do mesmo modo que Jesus recebemos o Espírito Santo no Batismo, e esse mesmo Espírito conduz a nossa vida. Temos que guiar a nossa vida segundo o Espírito Santo e não segundo a carne, por meio da ação do Espírito Santo podemos vencer as tentações que aparecem diariamente em nossa vida.  

Aproveitemos esse tempo quaresmal para confessar os nossos pecados e nos reconciliar com Deus. Façamos desse tempo quaresmal um grande retiro, sempre quando terminamos um retiro chegamos ao final renovados. Que cheguemos à celebração da Páscoa renovados e cheios do amor de Deus.  

Celebremos com muita unção este primeiro Domingo da Quaresma e trilhemos o caminho do amor e da misericórdia de Deus. O Senhor sempre está a nossa espera e nunca nos pune em proporção as nossas faltas, mas nos acolhe com amor de Pai. Eis o tempo favorável, eis o dia da Salvação.  

 

 

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