20 de julho – quando a amizade se torna caminho para Deus

Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS) 

 

No Dia do Amigo, somos convidados a contemplar uma das experiências mais belas da existência humana. A amizade não é apenas um sentimento agradável, nem uma simples afinidade entre pessoas. Quando vivida em profundidade, torna-se um caminho de amadurecimento humano e espiritual e pode revelar-se, até mesmo, uma experiência de encontro com Deus. 

O Evangelho revela algo surpreendente. Na última ceia, Jesus diz aos seus discípulos: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). O Filho de Deus poderia ter escolhido muitas formas para definir a relação com aqueles que o seguiam. No entanto, escolheu chamá-los de amigos. 

Essa palavra transforma tudo. O servo obedece por dever; o amigo participa da intimidade do coração. O servo recebe ordens; o amigo partilha a vida. Ao chamar-nos amigos, Jesus revela que a fé cristã não consiste apenas no cumprimento de normas ou adesão a uma doutrina. Ela nasce, antes de tudo, de uma relação viva de amor, confiança e proximidade com o próprio Deus. 

Santa Teresa de Jesus compreendeu essa verdade de maneira admirável. Em seus escritos, descreve a oração como um “trato de amizade”, um permanecer frequente na presença daquele que sabemos que nos ama. Para Teresa, os santos são “amigos fortes de Deus”, homens e mulheres que permitiram que essa amizade moldasse toda a sua existência. A santidade não nasce primeiramente de feitos extraordinários, mas de uma intimidade cultivada com fidelidade. Quanto mais alguém se torna amigo de Deus, mais aprende a amar como Deus ama. 

A própria Bíblia está repleta de amizades que se tornaram caminhos de salvação. Abraão foi chamado amigo de Deus. Moisés falava com o Senhor “face a face, como um homem fala com seu amigo” (Ex 33,11). Os discípulos de Emaús reencontraram a esperança enquanto caminhavam e conversavam com o Ressuscitado. A revelação bíblica nos mostra que Deus não deseja súditos submissos e distantes, mas filhos e amigos capazes de dialogar com Ele. 

Vivemos, porém, numa época paradoxal. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunicação e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos experenciado a solidão e a fragilidade de vínculos. Multiplicam-se os contatos, mas diminuem as relações profundas. Nesse contexto, a amizade autêntica torna-se um testemunho precioso. O verdadeiro amigo nos ajuda a crescer, a ser melhores, corrige sem humilhar, encoraja sem dominar e permanece do nosso lado sem exigir recompensas. 

Foi também isso que muitos santos experimentaram. Muitos chegaram a Deus por meio da amizade de alguém que os aproximou do Evangelho. A fé cresce quando encontra testemunhas. Deus, muitas vezes, escolhe o caminho simples e silencioso da amizade para tocar os corações. 

Talvez por isso o próprio Cristo tenha desejado permanecer entre nós não como um distante soberano, mas como o Amigo Fiel. Um amigo que conhece nossas fragilidades, caminha ao nosso lado, sustenta-nos nas provações e nunca abandona aqueles que ama. 

Toda amizade verdadeira traz consigo um reflexo do amor de Deus. Quando aprendemos a amar e acolher o amor com gratuidade, descobrimos que a amizade não é apenas um dom humano: é sinal e antecipação da comunhão para a qual fomos criados. Como ensinava Santa Teresa, os verdadeiros amigos de Deus tornam-se também os melhores amigos dos irmãos. 

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