Dom Jailton Oliveira Lima
Bispo de Itabuna (BA)
Iniciamos o ano de 2026 ainda envolvidos pela luz do Natal, tempo em que celebramos o Deus que se fez próximo, que entrou na história humana não pela força, mas pelo amor. Esse início de ano nos convida à reflexão e, sobretudo, ao discernimento. Vivemos um tempo marcado por decisões importantes, emoções intensas e grandes acontecimentos: é ano de Copa do Mundo, é ano de eleições, é ano em que sentimentos, opiniões e paixões tendem a se acirrar. Justamente por isso, torna-se ainda mais urgente voltarmos ao essencial do Evangelho.
Jesus nos deixou um critério claro e inegociável: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (cf. Mt 22,37-39). Não se trata de uma sugestão, mas de um caminho. Em meio às divergências políticas, sociais, ideológicas ou culturais, o cristão não pode abrir mão desse mandamento. Opiniões não podem se transformar em motivo de ódio, agressão ou violência. A fé cristã não combina com intolerância.
O próprio Cristo nos dá um exemplo luminoso quando escolhe os seus apóstolos. Eles eram diferentes entre si, vindos de realidades diversas, com pensamentos e temperamentos distintos. No entanto, havia algo que os unia: seguir Jesus, aprender com Ele, amar como Ele amou, sentir como Ele sentiu e rezar como Ele rezava. A unidade não nasce da uniformidade, mas do amor vivido na diversidade.
Santo Agostinho nos recorda: “Ama e faze o que quiseres”. Quando o amor é verdadeiro, ele não destrói, não humilha, não exclui. Pelo contrário, constrói pontes e cura feridas. São Francisco de Assis também nos ensina, com sua vida mais do que com palavras, que o Evangelho deve ser vivido com simplicidade, mansidão e respeito, mesmo em meio às contradições do mundo.
Seguir Jesus não é apenas ouvir o que Ele diz, mas colocar em prática aquilo que Ele pediu. Não se exige radicalismo agressivo nem posturas extremadas. O Evangelho não é vivido na gritaria, mas na coerência; não no ataque, mas no testemunho. Como ensina Santa Teresa de Calcutá: “Se não tivermos paz, é porque esquecemos que pertencemos uns aos outros”.
Antes de falar, antes de publicar, antes de reagir, é necessário um exercício de consciência cristã. Perguntemo-nos: o que vou dizer é verdade? O que vou dizer é necessário? O que vou dizer vai edificar a pessoa ou o relacionamento? Se a resposta for não, talvez o silêncio seja mais evangélico do que a palavra. O silêncio, muitas vezes, também é caridade.
Que este novo ano seja vivido à luz do discernimento, da oração e da escuta do Espírito Santo. Em um mundo marcado por divisões, sejamos sinais de reconciliação. Em um tempo de opiniões inflamadas, sejamos testemunhas do amor que acolhe. Que possamos, como cristãos, ajudar a construir uma sociedade mais justa, fraterna e pacífica, sem jamais perder de vista os ensinamentos de Cristo.
Que Maria, Mãe do Príncipe da Paz, nos acompanhe neste novo ano. Que o Natal que ainda celebramos não fique apenas nas luzes e nos símbolos, mas se traduza em gestos concretos de amor, respeito e misericórdia ao longo de todo o ano de 2026.
