Bispo de Frederico Westphalen (RS)
Domingo da Divina Misericórdia
A liturgia deste Domingo aprofunda o mistério da Ressurreição de Jesus, convidando os fiéis a contemplarem a vida nova que brota da vitória de Cristo sobre a morte e o pecado. Instituído por São João Paulo II no ano 2000, o domingo destaca a misericórdia infinita de Deus, revelada de modo especial nas chagas gloriosas do Ressuscitado.
A Palavra de Deus neste domingo apresenta a comunidade cristã primitiva como modelo de vida pascal e o encontro transformador de Jesus com os discípulos, especialmente com Tomé.
Primeira Leitura (Atos dos Apóstolos 2,42-47)
Os Atos dos Apóstolos descrevem a primeira comunidade cristã de Jerusalém como um só coração e uma só alma. Os fiéis eram assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão (a Eucaristia) e às orações. Viviam na partilha dos bens, vendendo propriedades e distribuindo conforme a necessidade de cada um. Essa unidade e generosidade atraíam novos membros, e o Senhor acrescentava diariamente os que seriam salvos. No Ciclo A, essa leitura destaca como a Ressurreição gera uma Igreja viva, marcada pela fraternidade, pela oração e pelo testemunho concreto da caridade.
Segunda Leitura (1Pedro 1,3-9):
São Pedro bendiz a Deus Pai que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo. Essa herança incorruptível nos sustenta mesmo nas provações, purificando a fé como o ouro no fogo. A alegria pascal é plena, mesmo sem ver Jesus fisicamente, pois cremos Nele e nos alegramos com alegria indizível.
Evangelho (João 20,19-31):
Este é o texto central do domingo. Na tarde do primeiro dia da semana (o dia da Ressurreição), os discípulos estão reunidos com as portas fechadas, por medo dos judeus. Jesus surge no meio deles e diz: “A paz esteja convosco!”. Mostra as mãos e o lado, e eles se enchem de alegria. Sopra sobre eles o Espírito Santo e lhes confere o poder de perdoar os pecados: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”.
Oito dias depois, Tomé (que não estava presente) duvida: “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos pregos e não puser o meu dedo no lugar dos pregos e a minha mão no seu lado, não acreditarei”. Jesus aparece novamente e convida Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel”. Tomé profere a mais bela confissão de fé do Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!”. Jesus responde: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram”.
O 2º Domingo da Páscoa encerra a Oitava de Páscoa, um único “grande domingo” que prolonga a solenidade da Ressurreição. No Ciclo A, o Evangelho de João enfatiza temas batismais e eclesiais: a paz que vence o medo, o dom do Espírito Santo (que evoca o sopro criador de Gn 2), o sacramento da Reconciliação e a fé que se torna madura mesmo sem ver.
A dúvida de Tomé não é condenada, mas transformada em ocasião de encontro. As chagas de Jesus não desapareceram na Ressurreição: elas foram glorificadas. Jesus ressuscitado carrega as marcas da Paixão, mostrando que a vitória não apaga o sofrimento, mas o redime. A misericórdia divina passa exatamente por essas chagas abertas para nós.
A comunidade cristã descrita em Atos dos Apóstolos é o fruto concreto dessa misericórdia: uma Igreja onde ninguém passa necessidade, onde a Palavra é anunciada, a Eucaristia celebrada e a caridade vivida. Hoje, somos desafiados a ser essa “comunidade de homens novos” nascida da cruz e da Ressurreição.
São João Paulo II quis que este domingo fosse o Domingo da Divina Misericórdia porque a misericórdia é o rosto concreto do amor de Deus revelado na Páscoa. Na imagem pintada por ordem de Santa Faustina Kowalska, Jesus aparece com raios vermelho e branco saindo do coração — símbolos do sangue e da água que jorraram do seu lado na cruz (Jo 19,34). Esses raios iluminam o mundo inteiro.
Neste 2º Domingo da Páscoa, somos convidados a:
Viver a paz pascal: Deixar que o Ressuscitado entre em nossos “cenáculos” fechados pelo medo, pela dúvida ou pelo pecado.
Receber o Espírito Santo: Para sermos enviados ao mundo como Jesus foi enviado pelo Pai.
Exercer a misericórdia: Perdoando uns aos outros e anunciando o perdão de Deus.
Crer sem ver: Como os que não tiveram a experiência física da Ressurreição, mas creem no testemunho dos apóstolos e da Igreja.
Construir comunidade: Vivendo a comunhão, a partilha e o testemunho, para que o mundo creia.
Que a confissão de Tomé ressoe em nossos corações: “Meu Senhor e meu Deus!”. E que a misericórdia divina, que brota do Coração de Jesus, renove nossa fé, nossa esperança e nossa caridade.
