Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

“Senhor, dá-me dessa água (Jo 4,15) 

Celebramos, neste domingo, o terceiro deste tempo quaresmal. Estamos chegando à metade desse tempo de graça e do nosso retiro quaresmal. Do mesmo modo que Jesus, somos convidados a vencer as tentações do inimigo e, com o auxílio do Espírito Santo, praticar a oração, o jejum e a caridade. Continuemos em nosso caminho de conversão e mudança de vida rumo à Páscoa de Nosso Senhor. Se ainda não foi possível aproximar-se do sacramento da Reconciliação, façamo-lo o quanto antes. 

A partir desta semana, as paróquias costumam realizar o mutirão de confissões. Procure ver a programação em sua paróquia. Preparemo-nos bem para esse sacramento por meio do exame de consciência; peçamos a luz do Espírito Santo e não tenhamos medo desse sacramento. O próprio Jesus nos acolhe nele e nos concede o seu perdão. Do mesmo modo que Deus nos perdoa, devemos também perdoar os nossos irmãos. 

Neste domingo celebramos o Dia Internacional da Mulher. Rezemos por todas as mulheres, para que sejam respeitadas em sua dignidade em todos os ambientes da sociedade: no trabalho, na família, na Igreja e nos diversos espaços sociais. Peçamos a intercessão da Virgem Maria por todas as mulheres, para que estejam sempre dispostas a fazer a vontade do Pai. 

Rezemos também por tantas mulheres que não são respeitadas por seus companheiros. Nesta semana internacional da mulher, elevemos nossas preces por todas as mulheres do Brasil e do mundo. Ao celebrarmos o Dia Internacional da Mulher, rezemos por nossas mães, que sempre se esforçaram para nos dar o melhor. Denunciamos, ainda, que os crimes de feminicídio devem ser combatidos com todo o rigor da lei brasileira. 

A primeira leitura da missa deste domingo é do livro do Êxodo (Ex 17,3-7). Essa leitura relata quando o povo de Deus começou a murmurar contra Deus e contra Moisés por estarem no deserto e passarem sede. O povo de Deus era um povo de coração endurecido, que muitas vezes não compreendia os planos de Deus e reclamava constantemente. 

Deus os havia libertado da escravidão no Egito, das garras do faraó, e era necessário atravessar o deserto até chegarem à Terra Prometida. Eles queriam que tudo acontecesse imediatamente: sair do Egito e já alcançar a Terra Prometida.  

O mesmo acontece conosco. Muitas vezes reclamamos diante de Deus, sobretudo quando aquilo que pedimos demora a acontecer. Contudo, Deus nunca se esquece de nós e sempre quer o nosso bem. Confiemos em sua graça e em sua infinita misericórdia. Muitas vezes somos ingratos: esquecemos de agradecer tantas coisas boas que Deus realiza em nossa vida; apenas pedimos e não sabemos esperar a graça acontecer. 

O salmo responsorial é o 94(95), que nos diz em seu refrão: “Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!”. É necessário ouvir mais e falar menos, até mesmo em nossos momentos de oração. Precisamos falar menos e deixar Deus falar conosco. Ouçamos o Senhor e permitamos que o Espírito Santo conduza o nosso caminho. 

A segunda leitura da missa deste domingo é da Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 5,1-2.5-8). Paulo afirma que somos justificados pela fé por meio do mistério da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por meio de Cristo, acreditamos que aquilo que aconteceu com Ele também acontecerá conosco. Se Cristo não tivesse ressuscitado dos mortos, vã seria a nossa fé. Essa leitura vem ao encontro do que celebramos neste tempo quaresmal. 

O cristão é aquele que nutre a esperança dentro de si; essa esperança foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo. A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu e se entregou por nós. A meta que cada um deve trazer no coração é alcançar a vida eterna. Amemos mais os nossos semelhantes e cultivemos maior caridade em nosso coração. 

O Evangelho deste domingo é de João (Jo 4,5-42 — forma longa). Ele relata quando Jesus chega a uma região da Samaria. Judeus e samaritanos não se relacionavam bem, pois os judeus consideravam os samaritanos impuros. Jesus, porém, vai na contramão da mentalidade da época e, em vez da exclusão, anuncia a inclusão e a salvação para todos. 

No lugar onde Jesus chegou havia um poço, o conhecido Poço de Jacó. Era por volta do meio-dia, e Ele estava cansado da viagem. Nesse momento, chegou uma mulher samaritana para tirar água, e Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. A mulher ficou admirada e perguntou como Ele, sendo judeu, pedia de beber a uma samaritana. Jesus respondeu que, se ela soubesse quem lhe pedia água, seria ela quem pediria, e Ele lhe daria água viva. 

Quem nos dá a verdadeira água, aquela que sacia para sempre a nossa sede, é o próprio Jesus. Peçamos a graça de sempre beber dessa água. Quando sentirmos sede espiritual, meditemos a Palavra de Deus e busquemos a Eucaristia; assim saciaremos nossa fome e nossa sede. Somos também convidados a oferecer essa mesma água aos outros, para que o mundo seja transformado. 

Muitas pessoas estão afastadas da Igreja e sedentas de Deus. Quem sabe, neste tempo quaresmal, possamos oferecer essa água viva a muitos irmãos e irmãs. Jesus dialoga com aquela mulher, revela aspectos de sua vida e manifesta-se a ela como o Messias esperado. Ele também conhece a nossa história: desde o ventre materno nos conhece, chama-nos pelo nome e guia nossos passos até o fim de nossa vida. 

Peçamos ao Senhor essa água viva que somente Ele pode nos dar. Mantenhamos viva a fé na ressurreição do Senhor e sejamos mais gratos a Deus por tudo o que acontece em nossa vida. Prossigamos nesta caminhada quaresmal rumo à Páscoa. 

 

 

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