Bispo de Frederico Westphalen (RS)
O Domingo III da Quaresma, no Ciclo A do Ano Litúrgico, convida os fiéis a uma reflexão profunda sobre a sede espiritual que permeia a existência humana. Neste tempo de preparação para a Páscoa, a Igreja nos apresenta leituras que evocam o tema da água como símbolo de vida, graça e encontro com Deus. Inspiradas no encontro de Jesus com a samaritana no poço de Jacó, essas passagens nos recordam que, assim como o povo de Israel clamou por água no deserto, nós também buscamos algo que sacie nossa sede interior.
As leituras do Domingo III da Quaresma (Ciclo A) giram em torno do tema da água viva, representando a salvação e o amor de Deus que transforma vidas. Vamos comentá-las sucintamente:
Na primeira leitura: Êxodo 17,3-7 – Aqui, o povo de Israel, no deserto, murmura contra Moisés por causa da falta de água. Deus instrui Moisés a bater na rocha de Horeb, de onde jorra água para saciar a sede do povo. Esse episódio simboliza a providência divina em meio às provações. No contexto quaresmal, ele nos ensina que, mesmo em momentos de dúvida e reclamação, Deus responde com misericórdia, convidando-nos a confiar em Sua presença. A rocha golpeada prefigura Cristo, de quem brota a graça salvífica, como São Paulo mais tarde afirmará.
Segunda Leitura: Romanos 5,1-2.5-8 – São Paulo proclama que, justificados pela fé, temos acesso à graça de Deus, e o amor divino é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. Ele enfatiza que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores, revelando a profundidade do amor de Deus. Essa leitura se conecta ao tema da água viva, pois o Espírito é como uma fonte interior que nos vivifica, transformando nossa fraqueza em esperança.
Evangelho: João 4,5-42 — O encontro de Jesus com a mulher samaritana no poço de Jacó é o coração deste domingo. Jesus, cansado, pede água à samaritana, uma estrangeira e pecadora, rompendo barreiras sociais e religiosas. Ele revela-se como a “água viva” que sacia para sempre, levando-a a reconhecer seus pecados e converter-se. A samaritana, então, torna-se missionária, anunciando Jesus à sua cidade. Essa narrativa destaca o diálogo transformador com Cristo, que conhece nossa história e nos oferece salvação, convidando-nos a uma fé autêntica e evangelizadora.
Essas leituras formam um mosaico que ilustra como Deus satisfaz nossa sede espiritual: do milagre no deserto à revelação pessoal em Jesus, passando pela efusão do Espírito.
O Domingo III da Quaresma nos desafia a examinar nossa própria “sede” — aquelas carências espirituais, como dúvidas, pecados ou rotinas vazias — e a buscar a água viva em Cristo.
Para aplicar isso em nossa vida, podemos pensar em algumas práticas concretas:
— Dedicar tempo diário à oração pessoal, como uma meditação sobre o Evangelho da samaritana, para dialogar honestamente com Jesus sobre suas fraquezas.
— Participar ativamente da Eucaristia, fonte de graça, e estender o encontro com Cristo aos outros, rompendo preconceitos em gestos de acolhida, como ajudar um necessitado ou se reconciliar com alguém distante.
Neste ano de 2026, a reflexão ganha ainda mais profundidade com a Campanha da Fraternidade, promovida pela CNBB, cujo tema é “Fraternidade e Moradia” e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Inspirada no mistério da Encarnação, a Campanha nos convida a reconhecer a moradia digna como direito fundamental e expressão concreta da fé cristã, combatendo a exclusão social e promovendo solidariedade com quem vive em situação de vulnerabilidade habitacional. Assim, transformados pelo amor de Deus, como a samaritana, seremos testemunhas vivas da esperança pascal em nosso cotidiano, construindo comunidades onde todos possam “morar” com dignidade. Que esta água viva nos impulsione a uma conversão genuína e frutuosa.
