Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
3º Domingo do Tempo Comum
“Segui-me e eu farei de vós, pescadores de homens” (Mt 4,19)
Celebramos neste domingo o Terceiro Domingo do Tempo Comum, que é também o Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo Papa Francisco. Estamos prestes a finalizar o primeiro mês deste ano; os dias passam depressa e precisamos aproveitar cada instante. Ainda é tempo de nos programarmos e escrevermos os nossos propósitos para este ano. Hoje teremos a oportunidade de instituir novos ministros catequistas em nossa Catedral. Na próxima semana teremos aqui em nossa Arquidiocese mais um Curso para os Bispos.
Aproveitemos este tempo para estarmos mais próximos do Senhor, escutar a sua Palavra e colocá-la em prática. Acabamos de celebrar o nosso padroeiro, São Sebastião, que era um incansável pregador da Palavra de Deus. Sigamos o seu exemplo e anunciemos a Palavra do Senhor onde quer que estivermos.
Ainda estamos em tempo de férias, da escola e do trabalho, mas não são férias de Deus. Mesmo quando estivermos viajando, precisamos nos organizar e reservar um tempo para ir à Santa Missa. É muito importante ter as famílias participando da Santa Missa; família que reza unida permanece unida. E, se a família viaja, passeia e se diverte junta, também deve participar da Santa Missa.
Celebramos sempre, no Terceiro Domingo do Tempo Comum, o Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo Papa Francisco em 2020. Bem sabemos que o Mês da Bíblia é setembro, e que no dia 30 desse mês celebramos São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do grego e do hebraico para o latim e, por isso, no domingo recordamos o Dia da Bíblia. O Papa quis chamar a atenção de todos os fiéis do mundo, logo no início do ano, para que deem atenção à Palavra de Deus ao longo de todo o ano, escutando-a, meditando-a e anunciando-a. Somos convidados a tirar a nossa Bíblia da estante, abri-la e meditá-la.
A Palavra de Deus deve ser o nosso livro diário, e todos os dias devemos ler e meditar um trecho. A Palavra de Deus nos edifica e nos dá forças para enfrentarmos as adversidades do dia a dia. A Bíblia pode ser lida em família, para que toda a família esteja sob a graça de Deus. Seria bom que as paróquias e comunidades deixassem a Palavra de Deus em destaque neste Domingo, seja na entrada da igreja, seja próximo ao ambão da Palavra. Dentre os propósitos para este ano, coloquemos como um deles a meditação diária da Palavra de Deus, além da participação na Santa Missa aos domingos.
A primeira leitura deste Domingo é do livro do profeta Isaías (Is 8,23b–9,3). Nessa leitura, o profeta quer dizer que o Senhor não fica lembrando dos nossos pecados e faltas do passado, se nos arrependermos de coração sincero. Foi o que aconteceu com o povo de Zabulon e Neftali: depois de tê-los humilhado, Deus os resgatou e cobriu de glória o caminho do mar, do além-Jordão e da Galileia das nações. O povo que andava na escuridão viu uma grande luz. Essa escuridão era o pecado em que esse povo vivia, e, por causa da infidelidade a Deus, foi exilado. Mas, como o Senhor não nos pune em proporção às nossas faltas, Ele resgata esse povo e o traz novamente para Israel. A luz do Senhor brilhou sobre esse povo; o pecado que o oprimia foi retirado e a falta, encoberta.
O salmo responsorial é o 26(27), que nos diz em seu refrão: “O Senhor é minha luz e salvação, o Senhor é a proteção da minha vida”. Se o Senhor está conosco, nada devemos temer. Precisamos ter essa certeza em nosso coração: só venceremos o mal se o Senhor estiver conosco. E ainda, que possamos sempre estar na presença do Senhor por toda a nossa vida.
A segunda leitura é da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 1,10-13.17). É a sequência da leitura que ouvimos na semana passada. Paulo diz à comunidade que não deve haver divisão entre eles e que todos devem viver na concórdia e na harmonia. Havia certa divisão na comunidade, pois alguns judeus não aceitavam a conversão dos pagãos. Eles achavam que somente eles seriam salvos, por se considerarem a raça escolhida por Deus. Contudo, a salvação de Deus é para todos, sejam os judeus, povo escolhido, sejam aqueles que se converteram agora. Por fim, Paulo afirma que na comunidade não deve haver divisão: Cristo morreu na cruz para salvar a todos, e não somente a alguns. Devemos adorar o Cristo crucificado, que ressuscitou por amor a nós.
O Evangelho deste Domingo é de Mateus (Mt 4,12-23 – forma mais longa). Jesus vai até Zabulon e Neftali, terras mencionadas pelo profeta Isaías na primeira leitura. Ele vai a esses lugares para que se cumpra aquilo que o profeta havia anunciado: o povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Como sabemos, muitas das coisas que aconteceram na vida de Jesus foram preditas pelo profeta Isaías, que foi um profeta que viveu cerca de quatrocentos anos antes de Jesus.
Essas regiões eram consideradas pagãs; por isso, o profeta diz que o povo andava nas trevas. Jesus tem a missão de ir até lá para converter aquele povo e ser luz para eles. Ele começou a pregar dizendo: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Essa conversão nada mais é do que mudança de vida, mudança de atitude. E não somente aquele povo de Zabulon e Neftali, mas cada um de nós precisa de uma conversão diária.
Ao continuar andando à beira do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos, André e Simão. Eles estavam lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus os chama e diz: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram tudo e começaram a seguir Jesus. O mesmo aconteceu com Tiago e João, filhos de Zebedeu: deixaram tudo e seguiram Jesus. Jesus percorria toda a Galileia pregando e anunciando o Reino.
O que aconteceu com esses quatro apóstolos pode acontecer com cada um de nós. Jesus continua a chamar pessoas dispostas a segui-lo. Ele escolhe pessoas simples; não escolhe necessariamente letrados, inteligentes ou já considerados santos. Esses quatro homens eram pescadores, tinham uma vida simples e deixaram tudo para seguir o Mestre.
O Senhor continua a chamar discípulos para segui-lo, e pode ser cada um de nós. Ele nos chama por meio da nossa oração pessoal e da intimidade com o Senhor. Precisamos acolher esse chamado em nosso coração, e não necessariamente para sermos padres ou freiras, mas para ajudarmos em nossa comunidade paroquial, como leitores, ministros da Eucaristia, catequistas, dentre outras funções. Basta abraçar com amor essa vocação.
Celebremos com alegria este Terceiro Domingo do Tempo Comum, nutrindo em nosso coração a certeza de que o Senhor sempre nos chama e espera o nosso “sim”. Em São Paulo hoje celebram a Conversão do Apóstolo das gentes – nossa unidade com esses nossos irmãos. Pelo nosso batismo, somos chamados a ser sinais do seu amor para aqueles que encontrarmos. Abraçar a vocação é um gesto de amor e gratidão a Deus.
