Bispo de Frederico Westphalen (RS)
Hoje, a Liturgia da Palavra nos convida a contemplar o tema central da vinda de Jesus como a grande luz que ilumina as trevas do mundo, chamando-nos à conversão e à unidade para seguirmos em seu Reino. É um convite a deixar as sombras do egoísmo e das divisões, nos integrarmos vitalmente a Ele, pela Graça santificante, e nos tornarmos pescadores de homens, espalhando essa luz no nosso dia a dia.
Nas leituras de hoje, vemos como Deus cumpre as promessas antigas.
O profeta Isaías anuncia uma luz que brilha sobre um povo oprimido, dissipando as trevas da desesperança. São Paulo, na sua carta aos Coríntios, exorta à unidade na Igreja, evitando divisões que enfraquecem a comunidade de fiéis.
E no Evangelho de Mateus, Jesus inicia o seu ministério na Galileia, proclamando: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Ele caminha à beira do mar e chama Simão, André, Tiago e João — simples pescadores — para o seguirem, transformando o seu trabalho cotidiano em uma missão divina.
A mensagem bíblica de hoje, na sua totalidade, nos revela que a luz de Cristo não é nada distante ou abstrata: ela irrompe na nossa realidade quotidiana, convidando-nos a uma conversão que une o nosso coração a Deus e aos irmãos, e nos envia a iluminar o mundo através das nossas ocupações ordinárias.
Mas como viver isso na prática? Pensemos naqueles pescadores: eles não eram eruditos ou líderes religiosos; eram homens comuns, imersos no suor do trabalho diário, lidando com redes, barcos e o mar imprevisível. Jesus os chama exatamente ali, no meio da sua rotina, para que se tornem instrumentos da sua luz. Isso nos ensina que a santidade não está em fugir do mundo, das nossas obrigações e deveres, mas em santificá-lo por dentro, não só no que fazemos, mas fundamentalmente, no que somos. Cada um de nós é chamado a ser essa luz no nosso ambiente: no escritório, na fábrica, na escola, na família. Imagine o seu trabalho como aquelas redes: lançado com amor e dedicação, ele pode “pescar” almas, aproximando as pessoas de Deus através do exemplo silencioso, da paciência nas dificuldades, da alegria no serviço aos outros.
A conversão que Jesus pede não é um evento isolado, mas um sim diário, renovado em cada momento. Quando enfrentamos as trevas — talvez uma discussão no trabalho, uma enfermidade, uma preocupação ou dificuldade familiar ou a tentação de dividir em vez de unir — recordemos que a luz de Cristo já brilha em nós pelo Batismo.
Unamo-nos como filhos de Deus a Cristo, superando as divisões que Paulo denuncia, para o nosso testemunho ser credível.
Sejamos como aqueles primeiros discípulos: deixemos as “redes” do comodismo rotineiro e sigamos Jesus, transformando o ordinário em extraordinário: a deixar de ser simplesmente pescadores de peixes (nossos interesses, nosso trabalho, nossos ganhos e propriedades) e, com Cristo, transformemos nossa vida em uma pesca da caridade, do amor ao próximo, do preocupar-se com os outros.
Assim, o Reino dos Céus se aproxima não só no futuro, mas aqui e agora, no nosso esforço por viver com retidão, caridade e profissionalismo. Com Cristo, podemos de verdade mudar o ambiente onde vivemos, auxiliar as pessoas que conosco convivem a se sentirem amadas, compreendidas, ajudadas.
Que Maria, Estrela da Manhã, nos ajude a refletir essa luz de Cristo. E que, ao final de cada um de nossos dias, possamos dizer: “Senhor, eu fui a tua luz no meu pequeno mundo”. Amém.
