5º Domingo da Páscoa – Ciclo

Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

 

Jesus: Caminho, Verdade e Vida  

 5º Domingo da Páscoa, no Ciclo A, oferece uma rica oportunidade para refletir sobre a identidade da Igreja como comunidade pascal, construída em torno de Jesus Cristo. Celebrado no Tempo Pascal, este domingo aprofunda o mistério da Ressurreição, convidando os fiéis a viverem como pedras vivas no templo espiritual que é a Igreja, com os olhos fixos em Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida. 

1.a Leitura (Atos dos Apóstolos 6,1-7), descreve o crescimento da comunidade primitiva e os desafios que surgem com ele. Os helenistas murmuram contra os hebreus porque suas viúvas são negligenciadas na distribuição diária. Os Apóstolos, reconhecendo que não podem abandonar a oração e o serviço da Palavra para cuidar de mesas, propõem a eleição de sete homens cheios do Espírito Santo e de sabedoria. A comunidade escolhe Estêvão, Filipe e outros, que são apresentados aos Apóstolos e recebem a imposição das mãos. O resultado é eloquente: a Palavra de Deus continua a se espalhar, o número de discípulos multiplica-se em Jerusalém e até muitos sacerdotes aderem à fé. 

Esta passagem revela a Igreja nascente como uma comunidade organizada, onde o serviço (diaconia) surge para atender necessidades concretas, especialmente dos mais pobres, sem dividir a missão entre “espiritual” e “material”. Os sete não são apenas administradores, mas homens cheios do Espírito, sinal de que todo serviço na Igreja tem raiz na santidade. 

A 2.a Leitura (1.a Carta de Pedro 2,4-9), apresenta uma imagem bela e profunda da Igreja. Cristo é a “pedra viva”, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa para Deus. Os cristãos são convidados a aproximar-se Dele e tornar-se, eles próprios, “pedras vivas” que formam um templo espiritual. Juntos, constituem um “sacerdócio santo” e um “povo adquirido”, chamados a anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua luz maravilhosa. 

Esta leitura destaca a dignidade batismal de todo cristão: não há cristãos de segunda classe. Todos participam do sacerdócio comum, oferecendo a Deus o culto da vida cotidiana, da caridade e da obediência à vontade divina. 

O Evangelho (João 14,1-12) faz parte dos discursos de despedida de Jesus na Última Ceia. Diante da iminente partida, Jesus consola os discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé também em mim”. Na casa do Pai há muitas moradas; Ele vai preparar um lugar e voltará para nos levar consigo. Quando Tomé pergunta pelo caminho, Jesus responde com uma das afirmações mais fortes do quarto Evangelho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. A Filipe, que pede para ver o Pai, Jesus revela: “Quem me vê, vê o Pai”. E promete que quem crê Nele fará as obras que Ele faz, e até maiores, porque Ele vai para o Pai. 

A mensagem central deste domingo é nos apresentar Cristo como centro e fundamento da vida cristã e da Igreja. Jesus não é apenas um mestre ou um exemplo: Ele é o Caminho que conduz ao Pai, a Verdade que revela o rosto de Deus e a Vida em plenitude que vence a morte. A Igreja nasce Dele e se constrói Nele como templo vivo, formado por pedras vivas — os batizados — animadas pelo Espírito Santo. 

A liturgia une três dimensões inseparáveis: 

A unidade na diversidade: como na comunidade de Atos, onde surgem ministérios diferentes (apostólico, diaconal) para servir melhor. 

A santidade comum: todos somos sacerdócio santo, chamados a oferecer a vida como culto espiritual. 

A missão contemplativa e ativa: olhar para Jesus (ver o Pai Nele) e continuar as Suas obras no mundo, especialmente no serviço aos pobres e na anunciação da Palavra. 

No coração da Páscoa, o Domingo nos recorda que a Ressurreição não é um evento passado, mas a dinâmica atual da Igreja: morrer para o egoísmo e ressuscitar para o serviço, a comunhão e a esperança no céu. A “casa do Pai” com muitas moradas aponta para a esperança escatológica, mas já se realiza na terra quando vivemos como irmãos em Cristo. 

Que este 5º Domingo da Páscoa nos renove na fé: Cristo é o fundamento sólido. Nele, a Igreja cresce, serve, anuncia e caminha rumo à plena comunhão com o Pai. Que o Espírito Santo nos faça pedras vivas bem ajustadas no templo santo de Deus, para glória do Pai e salvação do mundo. Amém. 

 

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