Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
“Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo” (Sl 118/119)
Celebramos, neste domingo, o sexto Domingo do Tempo Comum. Estamos em meio aos festejos do carnaval; na terça-feira é ponto facultativo de carnaval e, na Quarta-feira, iniciaremos o Tempo Quaresmal com a celebração da Quarta-feira de Cinzas. É claro que, mesmo em meio aos festejos do carnaval, não podemos deixar de participar da Santa Missa, principalmente da Missa dominical. Em nossa Arquidiocese jubilar ocorre dezenas de retiro espiritual durante estes dias. W23O Tempo Comum fará uma pausa na próxima terça-feira e será retomado somente após Pentecostes, ao final do Tempo Pascal.
O tempo passa rápido por nós; quando damos conta, os dias já passaram. Já estamos na metade do mês de fevereiro e, em breve, chegaremos ao terceiro mês do ano. Por isso, aproveitemos cada minuto com a nossa família, com os amigos, junto da comunidade, procurando fazer o bem e ouvindo a Palavra do Senhor.
A cada Domingo do Tempo Comum escutamos um ensinamento de Jesus e como Ele formou a primeira comunidade dos discípulos. Reunimo-nos na assembleia cristã para ouvir o que Ele tem a nos dizer e como podemos ser comunidade de discípulos nos dias de hoje. Escutamos o que o Senhor nos diz e comungamos do seu Corpo e Sangue. O Corpo e o Sangue de Cristo, que comungamos em cada Missa, é o alimento que sacia a nossa fome e a nossa sede; ao nos alimentarmos d’Ele, teremos forças para enfrentar as adversidades do dia a dia e a nossa luta contra o mal.
A cor predominante ao longo do Tempo Comum é o verde, que significa esperança. Acompanhamos Jesus anunciando o Reino de Deus e percorrendo toda a Judeia até entrar em Jerusalém. A partir do batismo, tornamo-nos discípulos e missionários de Jesus e somos chamados a anunciar o Reino de Deus nos dias de hoje.
No Evangelho deste domingo, Jesus diz que não veio abolir a Lei ou algum mandamento; pelo contrário, veio dar pleno cumprimento. Jesus ainda admoesta os ouvintes — e a cada um de nós — a viver plenamente os mandamentos. Que esta Eucaristia nos estimule a amar e servir a Deus e, como consequência, ao nosso próximo.
A primeira leitura deste domingo é do livro do Eclesiástico (Eclo 15,16-21). Esse trecho fala que o ser humano é livre para viver ou não os mandamentos. Os mandamentos da Lei de Deus não são uma imposição, mas uma orientação; a pessoa é livre para segui-los ou não. O Senhor não nos quer escravos d’Ele. É claro que haverá consequências diante da escolha feita: se escolher seguir os mandamentos da Lei, será abençoado; se escolher não os seguir, também arcará com as consequências de suas escolhas. Os olhos do Senhor estão voltados para aqueles que O temem e O respeitam. Aqui, o sentido de “temer” não é ter medo, mas sim respeitar; e respeitamos o Senhor quando respeitamos os seus mandamentos.
O Salmo responsorial é o 118 (119), que nos diz em seu refrão: “Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo.” Durante a nossa vida, precisamos fazer escolhas; uma delas é seguir a Deus. A partir do nosso batismo, passamos a pertencer a Deus, somos lavados de todo pecado e chamados a viver segundo a inspiração do Espírito Santo, observando os mandamentos.
A segunda leitura deste domingo é da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 2,6-10). Nesse trecho, Paulo fala à comunidade de Corinto sobre a sabedoria de Deus: nenhuma sabedoria humana é superior à sabedoria divina. Tudo o que Deus fez é perfeito, e essa sabedoria existe desde a criação do mundo. O Espírito Santo nos ajuda a compreender essa sabedoria de Deus; ao olharmos tudo o que existe no mundo, percebemos essa sabedoria divina, e o Espírito Santo nos introduz na intimidade de Deus, revelada por Jesus Cristo.
O Evangelho deste domingo é de Mateus (Mt 5,17-37 – forma longa). É a sequência do Sermão da Montanha, que estamos acompanhando há alguns domingos, correspondente a todo o capítulo cinco do Evangelho de Mateus. No trecho de hoje, Jesus afirma que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento. Os fariseus e doutores da Lei acusavam Jesus de não cumprir a Lei e de abolir os Profetas que O antecederam.
Meus irmãos, Jesus de maneira alguma abole a Lei e os Profetas; na verdade, Ele resume os dez mandamentos em dois, sem excluir os outros oito: amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. De fato, desobedecer a um dos mandamentos da Lei é fechar-se em si mesmo e não se abrir ao amor a Deus e ao próximo. Tudo aquilo que Jesus realiza foi anunciado pelos Profetas.
Jesus ainda admoesta a todos, afirmando que ninguém deve desobedecer a uma só vírgula da Lei nem incentivar alguém a não cumpri-la. Quem desobedecer aos mandamentos será considerado o menor no Reino dos Céus; quem os obedecer será considerado grande no Reino dos Céus. Ao contrário dos fariseus e doutores da Lei, que se diziam cumpridores da Lei, mas praticavam muitas injustiças, os cristãos devem cumprir os mandamentos e praticar a justiça que deles decorre. Em resumo, somos chamados a seguir o exemplo de Jesus, que pregava como quem tem autoridade, isto é, vivia aquilo que ensinava.
Celebremos com alegria este sexto Domingo do Tempo Comum e sejamos cumpridores da Lei e praticantes da justiça. Procuremos viver o amor ao próximo; o mundo já enfrenta tantas guerras e injustiças. Façamos a nossa parte como cristãos autênticos, amando a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Não podemos comungar do Corpo e do Sangue de Cristo se tivermos alguma desavença com o nosso próximo; procuremos reconciliar-nos com o nosso irmão antes de comungar. A Eucaristia é a maior prova de amor que Deus nos deu, e não podemos recebê-la indignamente se vivermos em desavença com o próximo.
Que o Espírito Santo de Deus, com a sua sabedoria, nos ajude a compreender a Lei e a colocá-la em prática no nosso dia a dia. A justiça é consequência da prática dos mandamentos. Quem ama a Deus, ame também o seu próximo.
