Desenvolvimento e impactos 

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

É relevante a importância das novas tecnologias para fortalecer o desenvolvimento e o progresso das pessoas e comunidades. De fato, é preciso extrair da natureza matérias-primas para a produção de bens que facilitam a vida humana nesta quarta grande Revolução Industrial. Somos todos a favor do desenvolvimento e acreditamos que, através dele, as pessoas e as comunidades podem superar vários desafios econômicos, além de facilitar nossa comunicação e a vida em geral em pleno século XXI. 

De outro lado, como nos ensinou o Concílio Vaticano II, “o progresso econômico deve permanecer sob a deliberação do ser humano. Não pode ser abandonado ao arbítrio de poucas pessoas ou de grupos econômicos muito poderosos, nem só da comunidade política, nem de algumas nações mais ricas” (Constituição Gaudium et Spes, 65). Já em 1967, São Paulo VI advertiu a humanidade: “O desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo…” (Populorum Progressio, 14). 

Somos chamados a construir um desenvolvimento baseado numa “economia que não deixe ninguém para trás, que reconheça e proteja o trabalho digno e seguro para todos, uma economia onde as finanças sejam amigas da economia real e do trabalho, uma economia que salvaguarde as culturas, as tradições dos povos, todas as espécies vivas e os recursos naturais da Terra”, como acentuou o pacto firmado pela juventude com o Papa Francisco já em 2022. 

Jamais podemos admitir um tipo de desenvolvimento que alimente aviões e automóveis que nossos habitantes nunca terão acesso. Jamais podemos admitir um tipo de desenvolvimento que segregue ricos e pobres, aumentando o fosso social que existe em nossa civilização. Jamais podemos admitir um tipo de desenvolvimento que produza sacrifícios humanos e ambientais. Ao contrário, precisamos salvaguardar a altíssima dignidade da pessoa humana e o respeito pelo mundo criado, obra da bondade divina entregue à nossa responsabilidade para dela sermos cuidadores. 

Temos conhecimento da importância da presença e do trabalho de grandes empresas que geram empregos para a população, propõem programas sociais e aquecem a economia. Em contrapartida, não podemos nos calar  diante dos impactos causados de forma indireta, tais como o aumento do êxodo rural e a consequente especulação imobiliária, a superlotação de hospitais com o agravamento da saúde pública, o aumento do custo de vida e a degradação do meio ambiente. 

Pior ainda, são os impactos causados diretamente pelo pretenso desenvolvimento, como vemos no Vale do Jequitinhonha. Relatamos aqui as montanhas de rejeitos da mineração, poluindo o ar com a poeira que dali exala, com o risco real de desabamento sobre as pessoas, suas casas, os rios e a natureza em geral. As cavas da atividade minerária a céu aberto, onde o solo é rasgado para retirar as riquezas guardadas ali pela natureza há séculos. O cheiro e o barulho das detonações invadem as casas e atingem as pessoas que não têm sossego para o justo descanso, inalando poeira que compromete a saúde, além da poluição de suas casas. Verificam-se a precarização estrutural dos imóveis, o temor pelo desabamento de residências, além de inúmeros impactos socioambientais. 

É lamentável ouvir as tentativas de relativização desses impactos por parte de profissionais pagos pelas empresas. Mesmo agentes de notícias publicam desinformações, dedicando-se a distorções sobre o real agravamento dos impactos sofridos por moradores das regiões afetadas. Tentam convencer a todos que tudo vai bem, sem nenhuma importunação das pessoas, suas comunidades e seus territórios. Na verdade, precisam convencer os investidores e não deixar as aplicações na bolsa de valores despencarem diante da realidade e dos danos socioambientais causados. Lamentável! 

O Papa Leão XIV assim se expressou na sua mensagem para o Dia Mundial pelo Cuidado da Criação 2025: “Em várias partes do mundo, já é evidente que a nossa terra está a cair na ruína. Por todo o lado, a injustiça, a violação do direito internacional e dos direitos dos povos, a desigualdade e a ganância provocam o desflorestamento, a poluição, a perda de biodiversidade. Os fenômenos naturais extremos, causados pelas alterações climáticas provocadas pelo homem, estão a aumentar de intensidade e frequência, sem ter em conta os efeitos, a médio e longo prazo, de devastação humana e ecológica provocada pelos conflitos armados” (Mensagem 30/06/2025). 

Em seu discurso pelo décimo aniversário da encíclica Laudato Sì, o Papa Leão XIV iluminou-nos com a esperança cristã e nos chamou a ter atitudes concretas diante dessas ameaças socioambientais: “Somos uma única família, com um Pai comum que faz nascer o sol e cair a chuva sobre todos (cf. Mt 5, 45); habitamos o mesmo planeta, do qual devemos cuidar juntos. Portanto, renovo um forte apelo à unidade em volta da ecologia integral e a favor da paz!”. E o Papa finaliza sua conferência com um inquietante questionamento: “Deus perguntar-nos-á se cultivamos e cuidamos bem deste mundo que Ele criou (cf. Gn 2, 15), para benefício de todos e das gerações futuras, e se cuidamos dos nossos irmãos e irmãs (cf. Gn 4, 9; Jo 13, 34). Então, qual será a nossa resposta?” (Discurso 1º/10/2025). 

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