Um milagre atrás do outro 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

O céu não parece estar acima de nós, mas dentro de nós, e sua imensidão encontra no peito humano, uma segunda abóbada para se repetir. Levantamos os olhos, e aquilo que chamamos firmamento nos devolve uma espécie de vertigem. Estrelas antigas, distâncias que não cabem em nossos números, luzes que chegam quando a sua fonte já morreu, constelações que nossos antepassados nomearam para não fracassar diante do indizível. E, no entanto, aqui estamos, frágeis, pensantes, inquietos, feitos de pó e pergunta, caminhando sobre uma rocha suspensa no escuro que aprendemos chamar de Terra. Uma nave sem paredes, girando no infinito. 

Já isso bastaria para o assombro, mas tem mais. Um milagre parece nunca vir sozinho. Primeiro, o milagre de haver algo em vez de nada. Depois, o milagre de haver ordem suficiente para que esse algo não se dissolva. Depois, o milagre de uma estrela com a distância justa, de um planeta com a temperatura possível, de águas reunidas, de minerais, de atmosferas, de células, de uma vida que aprende a insistir contra a morte. E, por fim, o milagre de uma vida que depois de tantos ensaios, tenha produzido um ser capaz de perguntar pelo seu próprio milagre. 

Nós somos esse espanto que se interroga. Não nos basta viver, queremos saber por que vivemos. Não nos basta nem mesmo morrer, queremos saber o que é a morte. Há, portanto, em nós, uma desproporção existencial. 

Há uma maravilha escondida nesse infinito. Perambular por essa imensidão é procurar uma verdade, e não um lugar. 

O pequeno príncipe encontrava em cada astro uma forma de solidão. O rei sem súditos, o vaidoso sem amor, o homem ocupado demais para olhar, o bêbado prisioneiro de si mesmo, o acendedor fiel a uma ordem que já ninguém compreendia. Assim, nós vamos descobrindo que o essencial não se entrega facilmente, que uma rosa pode pesar mais que todos os jardins, que uma amizade torna único aquilo que parece comum. 

Caminhar é tarefa infinita e o pensar exige a concretude do amor, assim como a terra precisa do céu para não se tornar estreita. 

Sem Deus, não ficamos necessariamente mais lúcidos; ficamos apenas mais conformados ao possível. Aprendemos a administrar o pequeno, a calcular o conveniente, a chamar de maturidade a renúncia das grandes perguntas. A ausência de Deus pode produzir uma inteligência satisfeita consigo mesma, exata nas medições e pobre na esperança. Mas nós não fomos feitos para o possível. O possível é pouco quando já pressentimos o infinito. 

Deus permanece como despertador que impede ao pensamento adormecer e adoecer. Pensar Deus é aceitar que a razão tem uma vocação maior do que a utilidade. É admitir um milagre atrás do outro na história secreta da criação. A matéria que desperta em vida. A vida que desperta em consciência. A consciência que desperta em pergunta. A pergunta que irrompe em oração. A oração que desperta em amor. E o amor devolve-nos ao começo de tudo, levando-nos a compreender que o universo inteiro foi, desde sempre, uma imensa preparação para que alguém pudesse dizer, com assombro e gratidão que existe, pense e ama. 

Então, estarmos perdidos entre estrelas, já não parece apenas um acidente luminoso no meio da noite cósmica. Parece, antes, um peregrinar que vaga no universo como viajantes minúsculos, levando uma lâmpada que nenhuma galáxia possui. Tudo o que temos visto até agora, parece repetir a mesma notícia de que a vida é um milagre atrás do outro. 

 

 

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