Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Meus queridos irmãos e irmãs!
Vivemos tempos de mudanças tão velozes que, muitas vezes, sentimos o coração apertado, sem saber ao certo para onde a humanidade caminha. Nossos lares estão cheios de telas, nossos jovens conversam com máquinas e a chamada Inteligência Artificial (IA) já faz parte do nosso dia a dia. É justamente para iluminar essa nossa realidade que o amado Papa Leão XIV nos presenteou com a sua primeira Carta Encíclica: Magnifica Humanitas.
Diferente do que muitos poderiam pensar, o Santo Padre não escreve para condenar a tecnologia. Ele escreve como um pai amoroso, preocupado em nos lembrar de uma verdade muito simples e preciosa: nenhuma máquina, por mais brilhante que seja, pode substituir a beleza do coração humano.
O Papa nos adverte sobre uma ilusão muito perigosa dos nossos dias: a ideia de que precisamos ser perfeitos, como máquinas que nunca erram. Há ideologias hoje, como o chamado “transumanismo”, que tratam nossas fraquezas, nossas doenças e nossos limites corporais como defeitos que a tecnologia precisa consertar a todo custo. Mas a Encíclica nos traz um conforto imenso ao recordar que é exatamente nas nossas fragilidades que o amor de Deus se manifesta. Uma inteligência artificial pode calcular tudo em segundos, mas ela nunca saberá o que é a dor de uma lágrima, a alegria de um abraço sincero ou a paz que brota do perdão. Deus se fez carne no Menino Jesus, e não um código de computador.
Leão XIV nos convida a olhar para as nossas famílias. Nossos jovens estão cada vez mais mergulhados na internet, muitas vezes expostos a ilusões, mentiras e a uma busca vazia por aprovação. O Papa nos pede uma “aliança educativa”. Precisamos ensinar nossos filhos a terem “sobriedade digital”, a valorizarem o tempo juntos à mesa, o olho no olho, e a buscarem a verdade com paciência, longe das respostas fáceis e das fake news geradas por algoritmos.
Nessa mesma reflexão, o coração do Papa se volta para os trabalhadores. A tecnologia deve existir para aliviar o peso do trabalho humano, e nunca para desempregar pais de família ou criar novas formas de escravidão. O documento denuncia com tristeza que, por trás da “mágica” da IA, existem milhares de pessoas — muitas vezes jovens e mulheres em países pobres — trabalhando exaustivamente, de forma invisível, para alimentar esses sistemas. A Igreja nos pede para não fecharmos os olhos a esses irmãos. O progresso só é verdadeiro se for para todos e se respeitar a dignidade de cada trabalhador.
Por fim, o Santo Padre faz um apelo comovente pela paz. É assustador pensar que, hoje, armas controladas por inteligência artificial podem decidir quem vive e quem morre em uma guerra, tratando seres humanos como meros “dados” a serem apagados. A paz não nasce das armas ou das máquinas, mas do diálogo e da construção de uma “civilização do amor”.
Meus irmãos, a escolha está em nossas mãos. Podemos construir uma nova Torre de Babel, fria e arrogante, ou podemos, como o profeta Neemias, reconstruir nossa sociedade pelo amor, tijolo por tijolo, segurando a mão do nosso próximo.
Que o cântico do Magnificat de Maria, a jovem simples de Nazaré que soube enxergar a grandeza de Deus na sua pequenez, nos inspire. Que Nossa Senhora nos ajude a usar as tecnologias para o bem, sem nunca perdermos a doçura e a imensa dignidade de sermos, simplesmente, humanos.
Deus abençoe a você e a sua família!
