Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
A publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, intitulada “Magnifica Humanitas”, oferece à Igreja e à sociedade uma profunda reflexão sobre os desafios antropológicos, éticos e espirituais do nosso tempo. Este período contemporâneo traz oportunidades e desafios que falam a todas realidades humanas, inclusive para a fé. Ao recordar os 135 anos da histórica encíclica “Rerum Novarum” de seu predecessor, o Santo Padre nos convida a olhar para a inteligência artificial não apenas como uma inovação técnica, mas como uma realidade que toca diretamente a dignidade da pessoa humana, o sentido das relações e a própria experiência da verdade. Não se trata de olhar de forma instrumentalizada esta evolução, mas desta mudança de época que se coloca diante de nós.
Vivemos uma época marcada por transformações rápidas, em que o ambiente digital já não é apenas um instrumento externo, mas um espaço que influencia a maneira como percebemos o mundo, construímos vínculos e compreendemos a nós mesmos, ou seja traz consigo uma nova cultura nessa “mudança de época”. O Papa recorda, com grande lucidez, que a tecnologia não é neutra. Ela traz consigo visões de mundo, interesses econômicos, escolhas culturais e projetos de poder. Por isso, o discernimento torna-se indispensável. O pensamento crítico deve ser o estímulo para habitarmos neste ambiente. A Igreja não é chamada a demonizar a tecnologia, mas a humanizá-la.
A encíclica toca um ponto central da tradição cristã: o ser humano não pode ser reduzido à lógica da eficiência, dos dados ou do desempenho. Em uma cultura cada vez mais marcada pela automação e pela velocidade, existe o risco de esquecermos aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a capacidade de amar, de sofrer, de contemplar, de perdoar e de construir comunhão. O Papa insiste que os limites humanos não são defeitos a serem eliminados, mas lugares onde amadurecem a relação, a solidariedade e a abertura a Deus.
Outro aspecto muito importante é o apelo a uma “ecologia da comunicação”. Em tempos de desinformação, polarização e inteligência artificial generativa, torna-se urgente “preservar rostos e vozes humanas” como foi a mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais. A comunicação não pode perder sua dimensão ética e relacional. Não basta transmitir informações; é necessário promover verdade, responsabilidade e confiança pública. O ambiente digital necessita de mais humanidade, mais escuta e mais compromisso com a dignidade das pessoas.
A reflexão do Santo Padre também recorda que a inteligência artificial não deve ficar concentrada nas mãos de poucos grupos econômicos ou políticos. Quando a tecnologia se transforma em instrumento de controle, vigilância e manipulação, corre-se o risco de novas formas de colonialismo e exclusão. A Doutrina Social da Igreja continua extremamente atual ao insistir no bem comum, na solidariedade, na subsidiariedade e na justiça social como critérios indispensáveis para orientar o desenvolvimento tecnológico. Nesta nova “revolução industrial” a igreja reflete sobre os rumos da humanidade hoje.
Chama atenção ainda a forte crítica à cultura da potência e à lógica da guerra. Em um mundo onde sistemas automatizados podem decidir cada vez mais sobre a vida humana, o Papa reafirma que nenhum algoritmo pode tornar moralmente aceitável a destruição do outro. A paz continua sendo fruto do diálogo, da justiça e do reconhecimento da dignidade de cada povo. A tecnologia deve servir à vida e nunca à banalização da violência.
A encíclica nos convida, portanto, a uma grande responsabilidade educativa. Precisamos formar, principalmente as novas gerações, para um uso consciente, crítico e humano das tecnologias. Não podemos permitir que os jovens percam a capacidade de perguntar, refletir e contemplar diante de máquinas que oferecem respostas imediatas para tudo. Educar continua sendo formar para a liberdade, para o pensamento crítico e para a abertura ao transcendente.
No fundo, a pergunta central permanece profundamente antropológica e espiritual: que humanidade queremos construir? Entre uma nova torre de Babel e a civilização do amor, somos chamados a escolher diariamente qual lógica irá orientar nossa presença no mundo digital. Como recorda o Papa Leão XIV, a verdadeira grandeza da tecnologia não está em substituir o humano, mas em servir uma magnífica humanidade habitada por Deus.
Que a Igreja continue sendo presença profética neste tempo, ajudando a sociedade a recordar que o progresso só será verdadeiramente humano quando estiver a serviço da dignidade da pessoa, da justiça, da paz e da esperança.
