Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
100ª Semana Eucarística
Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Que alegria imensa habita o nosso coração neste momento! A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro chega, neste Ano Jubilar, à sua 100ª Semana Eucarística e na comemoração dos 100 anos de Adoração Perpetua. Cem vezes o Povo de Deus desta cidade se reuniu ao redor do Santíssimo Sacramento para adorar, para rezar, para renovar a fé e para redescobrir, sempre de novo, o que nos une. Não é uma conquista pequena. É uma história de fidelidade. É a história de uma Igreja que, em meio a todos os desafios de cada época, não deixou de voltar à fonte.
Chegar a este marco, no contexto do Jubileu que celebramos como Prelazia, Diocese e Arquidiocese, tem um sabor todo especial. O Jubileu é, por natureza, tempo de graça, de conversão e de recomeço. E o que melhor poderia expressar esse recomeço do que nos reunirmos, mais uma vez, ao redor do Pão da Vida? A Eucaristia é o coração do Jubileu. É o coração de tudo.
Existe uma tentação sutil que acomete até os cristãos mais comprometidos: a de tratar a Eucaristia como mais um elemento da vida religiosa, como uma prática entre outras, como um item a cumprir na agenda semanal. Mas a Eucaristia não é isso. Ela é o centro. O Concílio Vaticano II a chamou de “fonte e cume de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, 11). Fonte porque é dela que brota tudo o que a Igreja tem de mais genuíno: a caridade, o serviço, a comunhão, a esperança. Cume porque é para ela que converge tudo o que fazemos. Sem Eucaristia, a vida cristã pode continuar ativa, pode continuar ocupada, mas perde o seu eixo. Perde aquilo que dá sentido ao movimento.
Na noite em que ia ser entregue, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e disse: “Tomai, comei: isto é o meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Essas palavras revelam o coração de Deus: um coração que se entrega, que se parte, que se oferece sem reservas. Fazer memória, no sentido bíblico profundo, não é lembrar algo que ficou no passado. É tornar presente o que aconteceu. É fazer com que o amor entregue no Calvário, a vitória da Ressurreição, a vida nova do Espírito, se tornem realidade aqui, agora, nesta assembleia, nesta comunidade, nesta vida concreta que cada um de nós está vivendo.
A Semana Eucarística existe para nos ajudar a fazer isso. Para nos tirar do automatismo e nos colocar de volta diante do mistério. Para nos perguntar, com honestidade e com fé: o que a Eucaristia tem feito em nós? E o que nós temos feito com a Eucaristia?
O lema que escolhemos para esta centésima edição vem do Apóstolo Paulo. Escrevendo à comunidade de Corinto, uma comunidade marcada por divisões internas, por vaidades e por disputas, ele não os repreende com um discurso moral. Ele os leva de volta à mesa. “O pão que partimos não é a participação no Corpo de Cristo? Embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Cor 10,16-17). A resposta de Paulo para a divisão é a Eucaristia.
Esse texto ilumina de forma muito direta o que vivemos como Igreja no Rio de Janeiro. Esta é uma cidade de contrastes que muitas vezes não se tocam. Realidades que existem lado a lado sem se ver. Há uma distância enorme, às vezes, entre o morro e o asfalto, entre o centro e a periferia, entre quem tem muito e quem não tem quase nada. E a Igreja, que está presente em cada canto desta cidade, nos bairros nobres e nas favelas, nos hospitais e nas escolas, nas comunidades religiosas e nos movimentos leigos, a Igreja tem a missão de ser sinal de que a unidade é possível. Não uma unidade artificial, que apaga as diferenças ou faz de conta que os problemas não existem. Mas uma unidade que abraça as diferenças e as transforma, porque está enraizada em algo maior: o amor de Cristo que se entrega por todos, sem exceção.
Este é o apelo do nosso lema episcopal, que carrego no coração desde o dia da minha ordenação: “Para que todos sejam um” (Jo 17,21). E não é por acaso que Jesus pronunciou essa oração exatamente no contexto em que instituiu a Eucaristia. Há uma ligação profunda e indissolúvel entre o Pão partido e a unidade do Corpo de Cristo. Quando partilhamos a mesma mesa eucarística, afirmamos que somos irmãos. Que há algo que nos une mais fundo do que tudo o que nos separa.
Mas a Eucaristia não nos fecha. Ela nos abre. Ela nos envia. Existe uma frase que o sacerdote pronuncia ao final de cada celebração e que carrega mais peso do que muitas vezes percebemos: “Ide para a missão” No latim original, “Ite, missa est”, e é daí que vem a própria palavra “missa”. A celebração termina com um envio. Não somos dispensados. Somos enviados. Saímos da missa diferentes de como entramos, ou deveríamos sair. Carregamos o Pão que recebemos para dentro da nossa vida, para dentro das nossas relações, para dentro dos ambientes onde vivemos e trabalhamos. Daí vem o tema de nossa 100ª Semana Eucarística: “Eucaristia, unidade e missão”.
Isso é o que significa dizer que a Eucaristia gera missão. Não se trata apenas de participar de uma Hora Santa ou de uma procissão de Corpus Christi, por mais belas e necessárias que sejam essas expressões da fé. Trata-se de deixar que o que acontece no altar aconteça também na vida. Cristo se entregou. Nós, que O recebemos, somos chamados a nos entregar também. A servir. A perdoar. A estar presentes onde há dor, onde há exclusão, onde há solidão.
A programação desta 100ª Semana Eucarística reflete exatamente isso. Ao longo desses dias, o Santuário de Adoração Perpétua na Igreja Matriz de Sant’Ana acolherá pastorais, movimentos, comunidades religiosas e grupos leigos das mais diversas realidades da nossa Arquidiocese. A Pastoral da Saúde e a Pastoral das Favelas. A Pastoral da Juventude e a Pastoral da Pessoa com Deficiência. Os sacerdotes e os diáconos. As famílias e os consagrados. Cada um com sua história, com seu rosto, com seu carisma. E todos reunidos ao redor do mesmo Sacramento. Isso é a Igreja. Isso é o que Paulo chamou de um só corpo formado por muitos.
Ao chegarmos a este marco, quero expressar minha gratidão a todos os que tornaram possível cada uma dessas cem edições. Lembramos, como saudades, nestes cem anos dos Senhores Arcebispos, meus veneráveis predecessores, os Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais Arcebispos D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti; D. Sebastião Leme da Silveira Cintra; D. Jaime de Barros Câmara; D. Eugenio de Araujo Sales e D. Eusébio Oscar Scheid, SCJ. Aos sacerdotes que presidiram as celebrações e as Horas Santas ao longo de todos esses anos. Às comunidades religiosas que mantiveram viva a chama da adoração, especialmente no Santuário de Adoração Perpétua, casa que acolhe esta semana especial confiado há 100 anos aos padres sacramentinos. Aos leigos e leigas que organizaram, que cantaram, que serviram, que rezaram. A cada fiel que chegou, às vezes carregando um peso enorme, e se ajoelhou diante do Senhor com fé simples e verdadeira. Essa fé simples é um tesouro. Não a troquemos por nada.
E que esta centésima edição seja não um ponto de chegada, mas uma renovação do caminho. Que ao adorarmos o Santíssimo Sacramento nestes dias, possamos dizer com toda a nossa vida: Senhor, acreditamos que Tu és o Pão da Vida. Acreditamos que sem Ti não podemos fazer nada (cf. Jo 15,5). E com essa fé, que possamos sair daqui como um só corpo, unidos pelo mesmo Pão, enviados para a mesma missão: levar ao mundo o amor que recebemos.
Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe da Igreja e Rainha do Brasil, interceda por todos nós nesta semana de tanta graça. Que ela nos ensine a contemplar o Filho com olhos de fé e a servi-Lo em cada irmão que encontramos. E que a Solenidade de Corpus Christi, com a qual esta semana culmina, seja para toda a nossa Arquidiocese um momento de renovação da fé, de alegria eucarística e de envio missionário.
