Na tradição judaica e cristã, o Nome de Deus é impronunciável, o Rosto de Deus jamais será plenamente visível e sua Ação será sempre nova e inapreensível. Entretanto, em Jesus de Nazaré Deus nos revelou algo absolutamente essencial sobre si mesmo: Ele é terna proximidade de pai e mãe; ele é amor, misericórdia e compaixão incondicionais.
A partir daquilo que contemplamos em Jesus, proclamemos nossa fé em um Deus que é Pai e Criador, Filho e Salvador, Espírito Santificador. Deus é perfeita comunhão, e não um sujeito solitário e absoluto. Nele temos nossa origem, nele caminhamos enquanto vivemos, nele temos nosso destino e nosso porto. Ele é unidade trina e trindade una.
Falar de Deus como Trindade Santa não é uma charada a ser decifrada, ou uma simples questão de números, de Deus ser um ou três. Um Deus que é Amor Vivo e vivificante não ‘cabe’ num triângulo com três ângulos e três linhas absolutamente iguais, igualmente frias e abstratas. Moisés entendeu bem, prostrou-se por terra e gritou: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico de bondade e fiel!” (Êxodo 34,7)
Cremos numa divindade que é o “Deus do amor e da paz”, que habita nas pessoas e comunidades que vivem a concórdia e a paz, e não nas alturas inacessíveis (cf. 1 Coríntios 13,11-13). “Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (João 3,16). “Deus é amor” resume o apóstolo João (1 João 4,8.16).
A solenidade da Santíssima Trindade é um convite a mergulhar e deixar-se envolver e dinamizar por este insondável mistério de amor, a participar no coral das criaturas que proclamam o amor belo e bom de quem as fez. Santa Catarina de Sena (Século XIV), compreendeu isso com sua perspicácia feminina, e o expressou numa belíssima oração.
Ó eterna Trindade, tu és como um mar profundo, onde quanto mais procuro mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de te procurar. Provei e vi em tua luz e com a luz da inteligência o teu insondável abismo e a beleza de tua criatura. Vendo-me em ti, vi que sou imagem tua, e compreendi que estás enamorado pela tua criatura.
Tu és um fogo que arde sempre e não se consome. Tu és que consomes por teu calor todo o amor profundo da criatura humana. Tu és de novo o fogo que faz desaparecer toda frieza e iluminas as mentes com tua luz. Tu és a veste que cobre nossa nudez, e alimentas nossa fome com a tua doçura, porque és doce, sem amargura alguma, ó Trindade eterna!
