Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Semana Eucarística
“Embora sendo muitos, formamos um só corpo” (1 Cor 10, 17)
A semana que antecede Corpus Christi é a Semana Eucarística. São sete dias que todos são chamados adorar o Senhor presente na Eucaristia. É um momento que pede silêncio antes de qualquer discurso. Um silêncio de gratidão. Porque são ocasiões em que o Povo de Deus voltou à mesa do Senhor, dobrou os joelhos diante do Santíssimo Sacramento e descobriu, cada vez mais fundo, que esse Pão é vivo. Que esse Pão sustenta. Que esse Pão une o que estava separado e envia o que estava parado. Não é pouca coisa. É a história de uma fé que não se cansou.
Levanta-te e come: Há uma cena no Primeiro Livro dos Reis que guarda uma beleza muito particular. O profeta Elias, exausto e sem forças, deita-se no deserto e pede a morte. Então um anjo o toca e lhe diz: “Levanta-te e come, porque o caminho é longo demais para as tuas forças” (1Rs 19,7). Elias come. E com aquela força caminha quarenta dias e quarenta noites.
Somos nós, muitas vezes, esse Elias. Chegamos à adoração carregando o peso da semana, das relações que machucam, das incertezas que não se resolvem, do cansaço que vai além do físico. E o Senhor nos toca. Oferece o Pão. E diz: levanta-te. O caminho ainda é longo, mas eu não te abandono.
A Semana Eucarística existe para ser esse toque do anjo. É a Igreja dizendo ao seu povo: para um instante. Vem comer. Não porque tudo esteja resolvido. Mas porque sem esse alimento não há forças para continuar.
Um só pão, um só corpo. A Eucaristia, unidade e missão. Paulo escreveu para uma comunidade dividida, marcada por vaidades e disputas, e não os repreendeu com um discurso moral. Levou-os de volta à mesa. “Embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Cor 10,17). É ali, ao redor do mesmo Pão, que as divisões perdem força.
Quando partilhamos a Eucaristia, afirmamos que somos irmãos. Que as fronteiras que o mundo impõe não têm a última palavra. Que há algo que nos une mais fundo do que tudo o que nos separa. E essa unidade que nasce da mesa eucarística não pode ficar dentro das paredes da Igreja. Ela precisa ir para a rua. Para os lares. Para os ambientes de trabalho. Para os lugares onde há dor, exclusão e solidão. A Eucaristia que não gera missão ainda não foi plenamente recebida.
Um convite para continuar. Celebrar a Semana Eucarística é também fazer uma promessa. A promessa de não parar. Enquanto houver pão e vinho sobre o altar, enquanto houver uma comunidade disposta a se reunir, a Eucaristia continuará sendo celebrada e adorada. Porque ela não é uma tradição que envelhece. Ela é a vida de Cristo comunicada ao seu Povo. E a vida de Cristo não tem fim. Que esta semana seja, para cada um de nós, um recomeço. Um passo a mais na direção d’Aquele que disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre” (Jo 6,51).
Venham. Comam. Levantem-se. E caminhai no Senhor.
