10º Domingo do Tempo Comum Ciclo A 

Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

 

“Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13) 

A liturgia do 10.º Domingo do Tempo Comum, no Ciclo A, nos apresenta uma mensagem central de grande força e atualidade: a misericórdia de Deus supera qualquer legalismo religioso, e o seu amor alcança preferencialmente aqueles que reconhecem a própria fragilidade e necessidade de salvação. Não é a simples perfeição ritual que agrada a Deus, mas o coração aberto à conversão e à compaixão. É esta a chave de leitura que une todas as leituras deste domingo e que dá sentido ao conjunto da celebração. 

A Primeira Leitura, tirada do profeta Oseias (Os 6,3-6), lança desde o início o tom de todo o dia litúrgico. O profeta dirige a Israel uma palavra incômoda: a fidelidade do povo é frágil como a névoa da manhã, que desaparece com o calor do sol. Deus lamenta que a religiosidade de Israel se tenha reduzido a práticas externas — holocaustos e sacrifícios — sem que o coração esteja verdadeiramente convertido. A frase que resume toda a mensagem profética é precisa e sem ambiguidade: “Quero amor e não sacrifício, conhecimento de Deus e não holocaustos.” Oseias ensina que a religião autêntica nasce do interior, de um relacionamento vivo e pessoal com Deus, e não do cumprimento mecânico de obrigações cultuais. Este texto constitui uma das mais belas sínteses da espiritualidade profética do Antigo Testamento. 

A Segunda Leitura, da Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 4,18-25), oferece uma perspectiva complementar ao apresentar Abraão como o grande modelo da fé que justifica. Perante a impossibilidade humana — a velhice do seu corpo e a esterilidade de Sara —, Abraão não vacilou na fé, mas “esperou contra toda a esperança” e acreditou firmemente na promessa de Deus. Paulo sublinha que a justiça que Deus nos atribui não vem das obras nem dos méritos pessoais, mas da fé em Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos por causa das nossas faltas e para a nossa justificação. A fé de Abraão torna-se assim espelho e convite para a fé de cada cristão: uma confiança que não depende das circunstâncias favoráveis, mas se apoia unicamente na fidelidade de Deus. 

O Evangelho de Mateus (Mt 9,9-13) é o ponto culminante e a síntese viva de tudo o que as leituras anteriores anunciavam. Jesus passa e vê Mateus sentado à mesa de cobrador de impostos. Com um simples e direto “segue-me”, Mateus levanta-se e segue-o imediatamente. O que se segue é ainda mais revelador: Jesus aceita sentar-se à mesa na casa do publicano, rodeado de pecadores e marginalizados. Este gesto de comunhão de mesa — profundamente simbólico na cultura judaica, pois significava aceitação e comunhão de vida — escandaliza os fariseus, que não conseguem compreender como um mestre religioso pode conviver com tais pessoas. A resposta de Jesus é lapidar e definitiva: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Ide aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.” Ao citar precisamente Oseias, Jesus faz a ponte perfeita com a Primeira Leitura e revela que a sua missão é a plena realização do projeto de amor de Deus. O fato de o próprio evangelista Mateus ser o protagonista desta cena confere ao relato uma força testemunhal única: ele próprio viveu esta misericórdia na própria carne. 

Do ponto de vista da aplicação prática, esta liturgia convida cada crente a um exame de consciência sincero sobre a qualidade da sua vida religiosa: a nossa prática de fé — a participação na Eucaristia, a oração, a generosidade — nasce de um amor genuíno ou reduz-se a hábito social e a cumprimento formal? Deus não se satisfaz com a fachada; interessa-lhe o coração. Em segundo lugar, somos chamados a rever o modo como olhamos para os outros. Jesus sentou-se deliberadamente à mesa dos excluídos. A comunidade cristã é chamada a aproximar-se sem preconceito daqueles que a sociedade marginaliza — os pobres, os migrantes, os presos, os que carregam histórias difíceis —, reconhecendo neles o rosto de quem Deus ama preferencialmente. Em terceiro lugar, a cena de Mateus recorda-nos que o chamamento de Deus é sempre atual e pessoal. Cada dia traz um novo “segue-me” — numa decisão de perdoar quem nos magoou, numa escolha de servir sem compensação, numa renúncia ao comodismo de uma fé morna. Por fim, à semelhança de Abraão, somos convidados a cultivar uma fé que não se abala perante as dificuldades da vida: nas crises, na doença, no fracasso, continuar a confiar na promessa de Deus que ressuscita e renova todas as coisas. 

Em síntese, o 10.º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir — ou redescobrir — o rosto misericordioso de Deus que não se cansa de chamar, de perdoar e de sentar-se à nossa mesa, seja qual for o nosso passado. 

 

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