Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Reunimo-nos com profunda alegria e gratidão, em torno do altar do Senhor, para celebrar a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Com o coração de pastor, olho para cada um e vejo a caminhada da nossa Igreja. Vejo as lutas, as alegrias, as esperanças e, não raro, as cruzes pesadas que muitos carregam no seu dia a dia. É exatamente para a nossa realidade concreta, muitas vezes marcada pelo cansaço, pelas incertezas e pela desesperança do tempo presente, que a liturgia da Palavra nos aponta um caminho de refúgio, de cura e de restauração: o Coração manso e humilde do nosso Salvador.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é um mero sentimentalismo passageiro, não é uma piedade de outros tempos e muito menos uma espiritualidade desvinculada dos nossos compromissos com a vida. Pelo contrário, é o mergulho no mistério central e mais profundo da nossa fé. Como nos recordou tantas vezes o saudoso Papa Bento XVI, e como o Papa Francisco insistiu em nos ensinar, ao contemplarmos o lado aberto de Cristo na cruz, do qual jorraram sangue e água (cf. Jo 19,34), nós contemplamos o amor de Deus que se fez carne e habitou entre nós. É a síntese de todo o mistério cristão. Do alto, de braços abertos – imagem tão familiar à nossa realidade arquidiocesana, que diariamente nos abençoa –, o Cristo nos mostra o Seu coração compassivo, permanentemente aberto para acolher a humanidade. É a promessa feita a Santa Margarida Maria Alacoque que continua a ressoar: “Eis o Coração que tanto amou os homens…”.
Nesta liturgia riquíssima do Ano A, a primeira leitura, extraída do livro do Deuteronômio (Dt 7,6-11), nos revela o alicerce insubstituível deste mistério: a gratuidade absoluta da eleição divina. O autor sagrado coloca nos lábios de Moisés palavras que recordam ao povo de Israel a sua própria identidade: “O Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes o mais numeroso de todos os povos – na verdade, sois o menor de todos –, mas porque o Senhor vos amou”.
Paremos um instante para refletir: que libertação extraordinária há nestas palavras! Nós vivemos imersos em uma sociedade que, ditada pelas lógicas do mercado e da eficiência, nos exige o tempo todo sermos os maiores, os mais fortes, os mais produtivos, os mais bem-sucedidos e os mais aplaudidos. A cultura atual nos julga pelo que temos e pelo que produzimos, descartando os que não se encaixam nesse padrão. Mas o Senhor nos diz exatamente o oposto. Ele não nos ama porque somos perfeitos, poderosos ou impecáveis. Ele nos ama pela nossa pequenez, pelas nossas fragilidades. O amor do Coração de Jesus é totalmente livre e gratuito. Ele nos escolhe não pelos nossos méritos acumulados, mas pela imensidão da Sua infinita misericórdia. Saber-se amado assim devolve a dignidade a qualquer coração ferido.
O Salmo Responsorial de hoje (Sl 102/103) faz eco a essa ternura paterna de Deus e nos convida a um profundo louvor: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo”. Quantas vezes, nas tribulações de nossa grande cidade, diante das notícias de violência, do aumento do desemprego, da fome que ainda bate à porta de tantos irmãos, das crises que desestruturam as famílias e da solidão que esmaga os corações nas nossas ruas movimentadas, nós nos sentimos esquecidos por Deus? O Salmo, porém, nos garante: Ele não nos trata segundo nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas. O Seu coração pulsa de compaixão por nós, como um pai se compadece de seus filhos. Deus conhece a nossa estrutura, sabe que somos pó, e justamente por isso a Sua misericórdia se inclina sobre a nossa miséria para nos levantar.
Esta certeza transformadora é coroada na segunda leitura, onde o apóstolo João, em sua primeira carta (1Jo 4,7-16), nos dá a definição mais bela, revolucionária e profunda de Deus que a humanidade já recebeu em toda a sua história: “Deus é amor”. Prestem atenção, irmãos: São João não diz apenas que Deus tem amor, ou que Deus faz atos de amor. Ele diz que a própria essência de Deus é o amor. E o Apóstolo insiste para não deixar dúvidas sobre a ordem desse amor: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele quem nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados”.
O Sagrado Coração de Jesus é este amor encarnado e visível. Não um amor abstrato, teórico ou de discursos vazios, mas um amor que se comprometeu conosco até as últimas consequências. Um amor que assumiu a nossa carne, que suou sangue no Getsêmani, que chorou diante do túmulo do amigo Lázaro, que tocou nas chagas dos leprosos, que devolveu a dignidade à mulher adúltera e que se deixou transpassar no lenho da cruz para nos dar a vida em abundância. Quando a Igreja nos convida a celebrar esta solenidade, ela nos chama a reconhecer que, antes de qualquer esforço nosso para amar a Deus, nós fomos amados primeiro, fomos alcançados primeiro. A nossa vocação essencial é deixarmo-nos amar pelo Senhor, para então, cheios desse Espírito, podermos transbordar esse amor aos nossos irmãos. É impossível dizer que amamos a Deus se odiamos o nosso irmão. O verdadeiro devoto do Coração de Jesus é um construtor incansável da paz, da reconciliação e da fraternidade onde há divisão e ódio.
E é no Evangelho de Mateus (Mt 11,25-30) que encontramos o ápice da mensagem de hoje, num dos trechos mais doces e consoladores de toda a Sagrada Escritura. Jesus, exultando no Espírito Santo, dirigindo-se ao Pai com intimidade, volta o Seu olhar para as multidões esgotadas e diz: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”.
Olhemos ao nosso redor com sinceridade. Quanto cansaço marca a nossa época! Há o cansaço físico das longas jornadas de trabalho, do tempo perdido nos transportes públicos lotados de nossa metrópole. Há o cansaço psicológico gerado pelas preocupações financeiras, pelo medo do dia de amanhã, pelas demandas irreais das redes sociais. E há, sobretudo, um profundo cansaço espiritual, o esgotamento da alma diante das feridas do pecado, dos vícios, dos relacionamentos rompidos e das decepções com aqueles em quem confiávamos. Quantas pessoas caminham por nossas paróquias, por nossas ruas, carregando fardos pesados e silenciosos de depressão, de luto não curado, de abandono.
A todas essas dores humanas, Jesus não oferece uma fórmula mágica de autoajuda. Ele não promete que os problemas vão desaparecer num passe de mágica. O que Ele nos oferece é muito maior: Ele nos oferece o Seu próprio Coração. “Vinde a mim!”, é o grito de amor do Mestre.
Ele nos ensina o segredo para suportar a vida: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso para as vossas almas”. O “jugo” no tempo de Jesus era aquela peça de madeira colocada sobre dois bois para que puxassem juntos o arado. Quando Jesus diz “tomai o meu jugo”, Ele está dizendo: “Deixe-me entrar debaixo dessa madeira com você. Deixe-me dividir o peso da sua cruz”. O jugo de Cristo não escraviza; pelo contrário, é a lei do amor, que liberta e dá sentido salvífico ao nosso sofrimento.
E Ele pede que aprendamos d’Ele não porque é um professor orgulhoso, mas porque Ele é a mansidão e a humildade em pessoa. A mansidão e a humildade de Cristo são os únicos antídotos capazes de curar um mundo doente, envenenado pela arrogância, pela polarização extremada, pelas guerras fratricidas e pela violência que não poupa nem as crianças. Aprender de Jesus não é decorar teorias, é assumir a postura do Seu Coração no trato com a nossa família, com os nossos colegas de trabalho, com aqueles que pensam diferente de nós.
Como discípulos missionários nesta grande arquidiocese, inseridos nos imensos desafios desta cidade, nós somos chamados, mais do que nunca, a ter um coração semelhante ao d’Ele. A nossa oração diária, constante e confiante deve ser aquela jaculatória tão simples e tão profunda que muitos de nós aprendemos no colo de nossos pais e avós: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso”.
Se verdadeiramente tivermos um coração semelhante ao de Jesus, não seremos uma comunidade fechada em si mesma, mas seremos uma “Igreja em saída”, uma Igreja samaritana, com as portas abertas. Seremos capazes de ir às periferias existenciais e geográficas, aos hospitais, aos presídios, às favelas, às famílias desestruturadas, para lavar os pés e enfaixar as feridas dos caídos à beira do caminho. Um coração configurado ao de Cristo não fica indiferente diante do irmão que sofre.
Que a celebração vibrante desta Solenidade renove em nós a esperança cristã. Não permitam que as dificuldades do tempo presente, por maiores que sejam, roubem a alegria de saberem que são amados infinita e incondicionalmente pelo Criador do Universo. Entreguemos neste momento, sobre este altar, as nossas famílias, as nossas vocações, os nossos irmãos doentes, os nossos jovens que buscam sentido para a vida, e todo o clero da nossa arquidiocese, para que sejam escondidos e protegidos dentro da fenda do Sagrado Coração.
E no sábado, como a Santa Mãe Igreja sabiamente nos propõe logo após a festa do Sagrado Coração, celebraremos o Imaculado Coração de Maria. Os dois corações batem uníssonos; o Coração de Jesus foi formado no seio puríssimo do Coração de Maria. Peçamos à Nossa Senhora, a primeira discípula e a primeira a adorar o Coração do Verbo encarnado ainda na manjedoura, que nos guie, nos cubra com seu manto, nos proteja de todos os males e nos ensine continuamente a descansar no amor inesgotável do seu amado Filho.
Que o Sagrado Coração de Jesus seja o nosso refúgio seguro, a nossa paz e a nossa salvação, hoje e sempre.
