Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)
Toda história bíblica conta o quanto Deus quer bem o homem. Muitos atos, grandes e pequenos, são relatados desde as primeiras páginas até as últimas. Os textos bíblicos deste domingo oferecem uma oportunidade para tratar deste tema (Êxodo 19,2-6, Salmo 99(100), Romanos 5,6-11 e Mateus 9,36-10,8)
O livro do Êxodo relata a formação do povo de Deus da primeira aliança. De um grupo de escravos recém liberto emerge da escuridão da história um povo chamado à intimidade com Deus, através de uma aliança. Este novo povo deve responder com escuta e fidelidade. Daí nasce a sua dignidade de povo santo, propriedade de Deus.
O Evangelho começa com uma observação psicológica e espiritual de Jesus: “vendo as multidões, compadeceu-se delas”. A sua reação não foi um sentimento estéril, mas desencadeou uma ação para criar uma relação. Para esta humanidade perdida, cansada, sem uma estrela polar para orientar e sem direção segura, envia um grupo dos seus fiéis seguidores pedindo que eles partilhem a sua paixão para com a humanidade. É uma atitude que mostra um Deus presente, que habilita os enviados a realizar os sinais extraordinários e, os ajuda a repor a confiança em Deus.
Antes de enviar os apóstolos para cumprirem uma missão e os alertar o que deveriam evitar, ressalta o que essencial nela: compadecer-se diante das multidões. A palavra grega usada no texto bíblico indica um amor forte com características maternas, um envolvimento íntimo e total. Sofrer como se estivesse na mesma situação.
Porque Jesus tem compaixão da multidão? “Porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor”. Aqui Jesus assume a missão de conduzir o povo e ser seu pastor. O seu cuidado não se torna um fato isolado, nem limitado a sua pessoa. Ele associa na preocupação pelas multidões os discípulos. “Então disse a seus discípulos: a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita”.
A constatação da dificuldade expressa na imagem agrícola, isto é, a colheita estava madura e havia pressa para colher, mas os operários eram poucos, não desencoraja e nem acomoda Jesus. Pelo contrário, é preciso envolver a todos na solução. Em primeiro lugar, solicita que os discípulos se coloquem em oração a Deus, o dono da messe e o verdadeiro pastor que cuida do seu povo.
A oração que Jesus adverte fazer cria uma dupla sintonia: uma com Deus e outra com o próximo. A primeira faz compreender que a solução dos problemas da Igreja é confiada primeiro totalmente a Deus. Se faz necessário sintonizar com ele e colocar-se na procura de realizar a sua vontade. Em segundo lugar, a oração cria a ligação com o próximo. A situação de abandono do povo se torna um problema de cada cristão e da comunidade cristã que sofre com a situação dos que “estão cansados e abatidos”. Jesus educa a sentir em modo eclesial e assumir pessoalmente as dificuldades dos outros.
Depois de envolver os discípulos na oração, Jesus chama doze, entre os discípulos, com a tarefa de serem apóstolos. Chama os doze pelo nome ressaltando a dimensão pessoal e os envia em duplas. Orienta como devem realizar a missão. Devem ser misericordiosos e cheios de compaixão como o Senhor que os enviou. Serem portadores de um dom que receberam e do qual são somente gestores, elevando a condição das pessoas pela cura das doenças.
O conteúdo central do anúncio dos apóstolos é “o Reino dos Céus está próximo”. Indica o senhorio de Deus na história, a sua presença eficaz que imprime um novo rumo aos eventos. Os apóstolos são anunciadores de uma novidade radical que há em Jesus a sua expressão plena e visível. Deus é presente e é visível nas obras de Jesus.
Por fim, os adverte: “De graça recebestes, de graça deveis dar!” A forma gratuita e generosa do viver e atuar dos apóstolos confirma a presença de Deus. É um anúncio de puro amor, longe de interesse pessoais, todo dedicado ao bem dos outros.
