Tudo começa em Jesus: o coração da fé que renova a missão

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

Depois de percorrer o caminho das Diretrizes, uma certeza se impõe com força e simplicidade: tudo começa em Jesus Cristo. Não como um ponto de partida apenas, mas como centro permanente, fonte e horizonte de toda a vida da Igreja. 

Podemos organizar melhor a pastoral, criar novos projetos, investir em formações e fortalecer estruturas. Tudo isso é necessário e pode produzir bons frutos. Mas, se faltar o essencial, tudo perde vigor. E o essencial é este: anunciar Jesus Cristo, conduzir as pessoas ao encontro vivo com Ele e ajudá-las a viverem como seus discípulos missionários. 

As Diretrizes nos conduzem exatamente a esse ponto. Ao falar de missão, de Igreja como tenda, de escuta dos sinais dos tempos, de sinodalidade e de conversão pastoral, elas não propõem apenas mudanças externas. Elas nos chamam a retornar ao coração da fé. E esse coração tem nome: Jesus Cristo. É Ele quem dá sentido à evangelização. É Ele quem sustenta a Igreja. É Ele quem transforma a vida das pessoas. Por isso, a pergunta decisiva não é apenas “o que fazer?”, mas “como tornar possível, hoje, o encontro das pessoas com Jesus Cristo?”. 

Aqui entra o Querigma. Não como um tema entre outros, mas como o eixo de tudo. O primeiro anúncio não é um momento isolado da ação evangelizadora. Ele precisa atravessar toda a vida da Igreja. Cada celebração, cada catequese, cada encontro comunitário, cada ação pastoral deve, de algum modo, abrir o caminho para esse encontro com Cristo Vivo, morto e ressuscitado, que releva o amor do Pai e comunica a vida nova do Espírito. 

Quando isso acontece, algo muda profundamente. A fé deixa de ser apenas costume ou obrigação e se torna resposta amorosa. A comunidade deixa de ser somente organização e se torna casa, família e lugar de pertença. A missão deixa de ser tarefa a cumprir e se torna paixão pelo Reino. A evangelização deixar de nascer do peso do dever e passar a brotar da alegria de quem encontrou o Senhor. 

As Diretrizes apontam também para um estilo de Igreja: uma Igreja em saída. Isso significa não esperar, mas ir. Não apenas acolher quem chega, mas buscar quem está distante. Não se contentar com os que já participam, mas olhar com misericórdia para aqueles que ainda não encontraram sentido, esperança ou lugar na comunidade. 

Isso exige coragem. Porque implica sair do conforto, rever práticas, enfrentar desafios e dialogar com um mundo em constante mudança. Mas é exatamente isso que Jesus fez. Ele foi ao encontro, especialmente dos pobres, dos feridos, dos esquecidos que estavam à margem. 

Outro ponto essencial é a formação de comunidades vivas. A fé não cresce sozinha. Ela precisa de um ambiente onde seja escutada, partilhada, celebrada e vivida. As Diretrizes insistem na importância de pequenas comunidades, nas quais as pessoas se conhecem, se apoiam e caminham juntas. São espaços de proximidade, de oração, de fraternidade e de amadurecimento da fé. 

Essas comunidades são o lugar onde o Querigma se torna concreto. Onde a Palavra é escutada com o coração aberto, a vida é partilhada com sinceridade e o amor de Deus se torna visível nos gestos simples do cuidado, da presença e da comunhão. Ali, a Igreja deixa ser apenas uma referência distante e se torna experiência concreta de encontro com Cristo e com os irmãos.  

No fundo, tudo converge para uma mesma direção: formar discípulos missionários. Pessoas que encontraram Jesus e não conseguem guardar apenas para si. Pessoas que vivem a fé com alegria, amadurecem na comunhão e sentem o desejo de partilhar aquilo que receberam. A missão nasce sempre de um coração tocado por Cristo.  

A série das Diretrizes termina, mas o caminho começa. Cada paróquia, cada comunidade, cada pastoral, cada agente de evangelização é chamado a dar passos concretos. A pergunta final não é teórica. É profundamente espiritual e prática: o que podemos fazer, hoje, para que mais pessoas encontrem Jesus Cristo e nele descubram a alegria do Evangelho? 

Se essa pergunta orientar nossas decisões, nossas prioridades e nosso modo de ser Igreja, então estaremos no caminho certo. Porque, no fim, tudo se resume a isso: uma Igreja que anuncia Jesus Cristo, vive nele, caminha com todos e se deixa continuamente renovar pelo seu amor. 

 

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