Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
“Uma Igreja que caminha na história da humanidade”, assim sublinha o Papa Leão XIV, na Carta Encíclica Magnifica Humanitas, sobre a identidade e a missão da Igreja Católica, que não pode ser confundida com um clube de amigos, não pode ser considerada uma organização não-governamental e nem simplesmente uma associação beneficente. Trata-se de instituição bimilenar presente no mundo todo, sinal de unidade para a família humana. A Igreja reconhece nas questões e desafios da atualidade o lugar onde deve exercer a sua vocação à escuta, ao diálogo e ao serviço, deixando-se interpelar por tudo o que diz respeito à existência dos homens e das mulheres na contemporaneidade. Reconhecer a identidade e a missão da Igreja ajuda a compreender o horizonte largo, luminoso e desafiador confiado por Jesus a seus discípulos: o Mestre quis a sua Igreja, por ela se imolou no alto da cruz para regenerar o gênero humano e iluminar o sonho de Deus, uma magnífica humanidade. A missão da Igreja tem, pois, alcance histórico e ajuda a definir a maneira como são tecidas as relações sociais.
O ensinamento papal ressalta, pois, que a missão da Igreja não pode fazer-se alheia às dinâmicas que moldam o rosto da sociedade. Ao invés disso, precisa se sensibilizar com as alegrias, os sofrimentos e as angústias que afligem a sociedade. O Pontífice lembra o Papa Francisco que, por várias vezes, recordava, com veemência, a dimensão histórica da missão eclesial. Francisco advertia que a religião não pode ser relegada à intimidade secreta das pessoas ou, como se diz, “ao escondido das sacristias”. A Igreja é perita em humanidade, mesmo quando sofreu consequências de vicissitudes humanas e limites históricos. Por isso, a partir do Evangelho de Jesus, com sólidos fundamentos e ensinamentos, deve sempre promover uma ação incisiva na vida social, interpelada a se pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. O ponto de partida da ação eclesial não é partidário ou restrito a âmbitos ideológicos. É a disponibilidade para caminhar com a humanidade, a humanidade magnífica, imagem e semelhança de Deus criador. Humanidade que, para a sua regeneração e salvação, foi derramado o sangue do Filho Amado de Deus.
A participação e inserção missionária da Igreja, obviamente, não fere a legítima autonomia da sociedade civil. Ao contrário, colabora para que essa autonomia seja qualificada e promova o bem comum, com um olhar especial e preferencial pelos pobres e deserdados, vítimas de violências, exclusões e discriminações. Sabe-se que a Igreja, relembra o Papa Leão, está ao lado do mundo sem lhe sobrepor, para que cada circunstância humana possa germinar a promessa de justiça e paz que o Espírito Santo continua a suscitar no coração da humanidade. O posicionamento da Igreja é, assim, iluminado pelo reconhecimento que Deus acompanha a liberdade dos seres humanos no desenrolar da história, conforme bem ensina o Concílio Vaticano II, sublinhando a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política. O Concílio salienta que cada uma delas deve agir em completa autonomia. Quando há mistura, corre-se risco de confusão e enfraquecimento, seja da comunidade eclesial, seja da comunidade política.
A Igreja não busca assumir as funções que competem ao Estado. Ao contrário, reconhece a sua autonomia que deve ser exercida a partir do compromisso fundamental com o bem comum. Reconhecendo essa autonomia, quando necessário, denuncia negligências e parcialidades. Por missão, a Igreja não pode distanciar-se dos sofrimentos humanos e do compromisso de partilhar tesouros humanísticos, contribuindo para consolidar valores e princípios essenciais à humanidade. A história comprova que a presença eclesial ajuda instituições, governos e segmentos da sociedade a se aproximar e a cuidar das feridas que afligem homens e mulheres. O Papa Leão focaliza esse aspecto essencial da missão da Igreja: o dever de inspirar caminhos de conversão pessoal e comunitária, apoiar a promoção de reformas de estruturas e novas formas de testemunho na vida pública.
São muitos os caminhos para efetivação da missão da Igreja, como aponta a Carta Encíclica citando, por exemplo, o diálogo com as ciências humanas, à luz da Palavra de Deus, fonte inesgotável e inspiradora de sabedoria. Afirma, pois, que a Palavra de Deus oferece critérios confiáveis para orientar os caminhos da justiça e abrir vias de reconciliação e paz entre os seres humanos. Reconhece-se que, por meio do diálogo fecundo entre Evangelho e ciências humanas, a Igreja aprofundou a sua Doutrina Social, arcabouço de indicações éticas e morais com força de reorientar os rumos da sociedade, ajudando-a na superação de injustiças e de cenários que maculam a magnífica humanidade. Ao caminhar com a humanidade, a partir de razões alicerçadas na fé, a Igreja contribui, inspira e se compromete com a inegociável busca por uma humanidade renovada. Uma humanidade movida por seu peregrinar rumo ao reino definitivo, capaz de edificar uma sociedade mais justa e solidária. Aprofundar a compreensão sobre a importância da missão da Igreja no coração do mundo é ajudar a cidadania civil a se qualificar inspirando-se pela cidadania do reino de Deus. Possibilita, desse modo, um alinhamento de propósitos e a conquista de indispensável lucidez, a partir da contribuição da comunidade eclesial, a Igreja que caminha com a humanidade.
