Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9, 37) 

Neste décimo primeiro domingo do Tempo Comum, a Liturgia da Palavra nos chama a mergulhar no mistério do chamamento, da misericórdia e da missão. A Igreja retoma nossa caminhada dominical ordinária e nos insere novamente na escola de Jesus. Assim, aprendemos a compassar nossos corações com o Seu Coração eminentemente compassivo. 

A Palavra de Deus, já nas páginas do Antigo Testamento, demonstra a certeza do amor incondicional e da eleição gratuita. Na primeira leitura (Ex 19,2-6a), o povo de Israel acampa no deserto do Sinai. Ali, o próprio Deus toma a iniciativa amorosa: “Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (Ex 19,4). O Senhor nos liberta de nossas escravidões pela Sua inesgotável bondade, não pelos nossos méritos. 

Todavia, essa maravilhosa libertação traz consigo uma missão claríssima. Deus promete: “Sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). Essa “nação santa” não representa um privilégio que nos afasta da sociedade, mas sim uma nobre vocação. Deus espera que sejamos o Seu sinal na humanidade. O nosso Batismo nos garante a participação neste sacerdócio comum. Deus nos convoca diariamente para agir como pontes de intercessão, especialmente no burburinho e na correria das nossas grandes metrópoles, em nossas famílias e nos ambientes de trabalho. 

Essa obra de salvação atinge seu cume esplendoroso em Cristo. O apóstolo São Paulo, na carta aos Romanos (Rm 5,6-11), sublinha o caráter absoluto dessa gratuidade: “Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5,6). A lógica divina derruba a nossa presunção de querer fazer por merecer. A salvação atua como pura graça. Deus nos ama primeiro, abraça as nossas fraquezas e nos cumula de vida nova. 

O Evangelho de Mateus (Mt 9,36 – 10,8) derrama essa mesma gratuidade de forma tocante. Jesus, ao percorrer as cidades, olha as multidões e enche-se de compaixão. Ele percebe que as pessoas andam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36). Hoje, enxergamos inúmeras multidões exaustas nas praças de nossas cidades. Encontramos pessoas feridas pela violência urbana, esmagadas pela exclusão e aprisionadas pela solidão. O olhar do Divino Mestre brota das Suas entranhas de misericórdia. Ele sofre junto com o Seu povo. 

A compaixão profunda de Cristo gera ação imediata. Ele volta-se aos discípulos e exorta: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe!” (Mt 9,37-38). O detalhe maravilhoso da pedagogia de Jesus ensina muito: Ele envia imediatamente à plantação os mesmos discípulos que orientou a suplicar (Mt 10,1). A oração autêntica não permite terceirizar a missão; ela nos desacomoda e nos coloca a caminho do próximo necessitado. 

A vocação exige uma resposta pessoal e singular. Jesus chama os Doze pelo nome (Mt 10,2). Ele não escolhe pessoas previamente capacitadas. Através do Espírito Santo, Cristo capacita os escolhidos com excelência. Ele entrega uma ordem direta a eles e a toda a nossa Igreja Missionária: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” (Mt 10,8). 

Esse mandato guia os passos das nossas comunidades. Numa sociedade muitas vezes regida pelo lucro e pelo descarte humano, a Igreja existe para estender o braço da misericórdia. Cristo nos curou para que curemos os outros. Ele nos perdoou para que levemos o perdão aos corações feridos. 

Ao participarmos fervorosamente deste banquete eucarístico, clamemos por santas vocações sacerdotais, religiosas e matrimoniais. Que cada um de nós assuma a sua parcela de responsabilidade na grande obra construtora do Reino. 

A Virgem Maria, Senhora das Graças e padroeira de tantas de nossas realidades, intercede por nós. Ela nos ensina, a partir de seu exemplo luminoso, a pronunciar o nosso “Eis-me aqui”. Assim, nos colocamos amorosamente a serviço dos irmãos mais sofridos. Levemos corajosamente às periferias existenciais a mensagem da paz e da verdadeira alegria, que recebemos de graça pelo sangue de Cristo.  

 

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