Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
O dito de Jesus segundo a qual nada há de encoberto que não venha a ser revelado e nada há de escondido que não venha a ser conhecido (Mt 10,26) pertence ao campo do religioso, mas alcançou, ultimamente, o domínio geral da história e da vida.
Houve tempo, em que a revelação do escondido podia ser imaginada apenas no juízo final, diante de Deus, quando a consciência humana já não teria refúgio. Hoje, sem ferir esse sentido último, começamos perceber a antecipação histórica dessa verdade.
A comunicação contemporânea tornou-se um ambiente moral. Vivemos dentro dela. Uma palavra dita pode perdurar por décadas, uma promessa feita pode ser confrontada com documentos, dados, imagens e consequências, e um sermão religioso pode ser medido pelo testemunho concreto de quem o pronunciou. O que antes pertencia a memória, agora é arquivo, banco de dados e rastros digitais.
Existe nesse modo de descoberta uma força positiva que não deve ser desprezada. O poder sempre preferiu a penumbra de zonas de silêncio, de documentos inacessíveis, de vítimas desacreditadas, de discursos solenes capazes de esconder práticas miseráveis. Em nosso tempo esta zona se estreitou muito.
É nesse ponto que a profecia evangélica se concretiza. Jesus não ensina apenas que Deus tudo vê. Ele nos liberta do medo dos homens porque anuncia que a mentira não pode ser perdurar para sempre.
A palavra de Cristo, neste décimo primeiro Domingo, rompe essa ilusão. O escondido não é senhor do tempo e a verdade, ainda que retarde, possui vocação de vir à luz. No Evangelho, essa certeza nasce da soberania de Deus, na história, ela encontra instrumentos inesperados em tecnologias que, mesmo criadas sem esse propósito, acabam tornando mais visível a responsabilidade moral dos atos humanos.
A inteligência artificial é uma nova etapa da memória pública, ampliando a capacidade humana de reconhecer padrões, cruzar informações, verificar coerências, perceber contradições e recuperar o perdido.
Em um mundo saturado de dados a inteligência artificial pode servir a esse trabalho de organização. Ela pode confrontar discursos com fatos, promessas com resultados, declarações com práticas efetivas.
A vida fragmentada, em que alguém sustenta uma linguagem para o público, outra para os aliados, outra para os negócios e outra para a consciência, torna-se cada vez mais insustentável. O mundo atual cobra unidade. Cobra que a palavra tenha consequência e que a autoridade seja acompanhada por transparência.
Quanto maior a responsabilidade, menor deve ser o direito à duplicidade. O governante, o juiz, o pastor, o comunicador e todo aquele que influencia a vida de outros não podem tratar a verdade como coisa periférica.
A autoridade é uma forma de exposição. No passado, essa exposição podia ser controlada por símbolos, títulos e distâncias. Hoje, ela se tornou mais direta. A sociedade observa, registra, compara e pergunta. Não basta dizer que se serve ao povo, à justiça, à Igreja, à democracia, aos pobres ou ao bem comum sem os sinais concretos desse serviço.
Há agora uma possibilidade espiritual. A transparência contemporânea pode ser entendida como ameaça para quem deseja apenas preservar aparências, mas pode ser acolhida como graça por quem deseja viver à luz do dia. A coerência não nasce do medo de ser descoberto mas do desejo de não precisar esconder-se.
A vida cristã, desde o início, propõe essa unidade entre interior e exterior. Jesus critica a hipocrisia porque ela divide o ser humano. O hipócrita é alguém que transforma a aparência em modo de vida. Por isso, a palavra evangélica sobre o escondido revelado não é vingança divina, mas cura da história. O que vem à luz pode ser julgado, purificado, corrigido e redimido.
A inteligência artificial pode ajudar instituições a prestar contas e os cidadãos a compreender processos complexos. Pode auxiliar na leitura de grandes volumes de documentos e na verificação de dados públicos. Seu valor moral dependerá, porém, da intenção que a conduz. Por isso, a questão decisiva continua sendo mais espiritual que técnica, e diz respeito ao tipo de ser humano que conduz esses instrumentos.
A profecia de Cristo, portanto, não se cumpre apenas no fim dos tempos. Ela caminha na história e se realiza sempre que a verdade vence a desfaçatez. O mundo da comunicação total não é o Reino de Deus, mas pode ser um sinal severo e luminoso de que a humanidade já não tolera com a mesma facilidade a distância entre a palavra e a vida.
Há, pois, uma esperança possível para o mundo contemporâneo, uma época marcada pela confusão, mas que engendrou recursos inéditos para aprumar os objetivos.
