Verdade, comunicação e democracia na era da Inteligência Artificial 

Dom João Santos Cardoso 
Arcebispo de Natal (RN)

 

No capítulo IV da Encíclica Magnifica Humanitas (MH), o Papa Leão XIV analisa os profundos desafios da revolução tecnológica, particularmente da inteligência artificial, mostrando que seus efeitos atingem dimensões essenciais da vida humana e social. Entre elas, destaca-se o impacto das novas tecnologias sobre a comunicação pública, cuja qualidade depende diretamente da confiança social. Nesse contexto, torna-se decisivo compreender em que sentido o conceito de verdade está ameaçado e quais são as consequências desse fenômeno para a democracia. 

O desenvolvimento das plataformas digitais e dos sistemas de inteligência artificial constitui uma das mais profundas transformações culturais do nosso tempo. Nunca foi tão fácil produzir, difundir e consumir informações em escala global. Ao mesmo tempo, nunca foi tão simples manipular conteúdos, imagens e vídeos com aparência de autenticidade. A desinformação, embora anterior à IA, encontra nela um poderoso multiplicador, expondo os cidadãos a perspectivas parciais ou enganosas. Por isso, Leão 

XIV afirma que a questão não é apenas tecnológica, mas profundamente cultural e moral, pois “a qualidade da comunicação pública depende da confiança social e tem impacto sobre ela” (MH n. 132). 

Outro perigo identificado pelo Papa é a concentração do poder comunicacional nas mãos daqueles que controlam plataformas digitais, algoritmos e grandes recursos tecnológicos e econômicos. Esses agentes possuem extraordinária capacidade de influenciar o imaginário coletivo e de moldar a compreensão que as pessoas têm do ser humano, da família, da sociedade e até de Deus. Surge, assim, um poder que pretende determinar o que deve ser considerado verdadeiro, reduzindo a verdade à lógica dos interesses, da influência ou da eficácia (MH, n. 133). 

Nesse contexto, a democracia se torna vulnerável. Leão XIV recorda que ela não se sustenta apenas sobre instituições, leis ou procedimentos eleitorais. A democracia necessita de uma busca comum da verdade, porque somente ela permite um autêntico discernimento em favor do bem comum. Quando a verdade deixa de interessar e prevalece apenas aquilo que parece útil, conveniente ou eficaz, instala-se um pragmatismo que corrói silenciosamente a vida democrática. Citando Hannah Arendt, o Papa recorda que o súdito ideal do totalitarismo não é tanto aquele ideologicamente convencido, mas aquele que já não consegue distinguir entre fato e ficção, entre verdadeiro e falso (MH, n. 134). 

Diante desse cenário, a Encíclica propõe uma verdadeira ecologia da comunicação. A verdade deve ser reconhecida como um bem comum, e não como propriedade daqueles que detêm poder econômico, tecnológico ou visibilidade. Isso exige transparência nos critérios de seleção e amplificação dos conteúdos, responsabilidade ética no desenvolvimento da inteligência artificial, educação para o pensamento crítico e compromisso permanente com a verificação dos fatos (MH, n. 137). A própria Igreja é chamada a testemunhar essa cultura da verdade, cultivando a transparência e assumindo, com humildade, a responsabilidade de enfrentar também as verdades incômodas sobre si mesma (MH, n. 138). 

Somente uma comunicação fundada na verdade poderá fortalecer a confiança social, proteger a liberdade e preservar a democracia como instrumento efetivo de participação no bem comum. Por isso, Leão XIV afirma que, diante da transformação digital, somos chamados a redescobrir a verdade como bem comum, condição indispensável para salvaguardar o humano na era da inteligência artificial (MH, n. 131). 

Tags:

leia também