Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

O ano eleitoral coloca em evidência, de modo mais forte, os muitos falimentos na política. Mesmo que esse âmbito reúna também gente séria, acentua-se o descrédito em relação à política no Brasil. Uma desconfiança que gera distanciamento do sentido filosófico e antropológico da política: meio indispensável na edificação de uma sociedade justa e igualitária.  Quando esse meio é desconsiderado, as perdas são muitas. Há especial prejuízo para os cristãos, que deveriam viver a política como um nobre modo de se exercer a caridade, coração da fé. Ao agir de modo indiferente em relação à política, passa-se a reduzi-la aos interesses partidários, tornando-se refém daqueles que a instrumentalizam com o objetivo de agir de modo cartorial, favorecendo as oligarquias, as forças dominantes, mesmo que isso signifique sacrificar o bem comum, os mais pobres e excluídos.  

Sem adequado envolvimento cidadão, a força política se desenha como instrumentalização, até mesmo legislativa, em favor de quem menos precisa, mas que quer ter sempre mais e muito mais. O distanciamento em relação à política tem incidência no grupo de representantes políticos, apequenando as atuações e impedindo o surgimento de novos nomes com envergadura moral, competências e confiabilidade. Representantes dedicados à promoção e à defesa do bem comum, com atuações que comprovam a opção pelo tecido social e cultural igualitário. Ao invés desse contexto de qualificada participação cidadã, com reflexões no campo da representação, tudo se transforma em disputa polarizada, alicerçada na cegueira que se expressa no ato de idolatrar figuras, por simpatias, por populismos, ou por fidelidade a interesses meramente partidários. A pequenez que se instala acentua ainda o distanciar-se da política, o que ameaça o bem de todos. 

 Privilegia-se a exaltação de figuras, desconsiderando propósitos com relevância social, favorece-se o uso manipulado e proposital da máquina pública e de outras estruturas que deveriam estar submetidas ao bem comum, para o atendimento de interesses econômicos dos empoderados. Esse encurtamento prático da visão política aprisiona a sociedade, impedindo-a de ser oxigenada por novas formas de se exercer o poder, capazes de dar mais velocidade aos necessários consertos, de toda ordem, no tecido social, para se alcançar, sem retardos, um desenvolvimento integral e estrutural. A sociedade não deve se conformar com representações políticas que trabalhem, prioritariamente, para o bem de quem é privilegiado, de quem menos precisa. Os falimentos na política têm como consequência sedimentar uma cultura determinada pelos interesses exclusivamente pecuniários – que estreitam horizontes, fazem perder oportunidades para alcançar uma nação que poderia ser edificada se houvesse mais gente de envergadura no exercício do poder. Necessário é, pois, explicitar esses falimentos para se tomar novos rumos, distanciando-se de rotas que impõem atrasos à sociedade, validam cenários de exclusão e impõem a mediocridade de não se incomodar, não se envergonhar, das misérias sociais e humanas.  

Os falimentos na política são obstáculos ao exercício da representação nas instâncias do poder, tornando cada vez menos frequente o agir político que é expressão qualificada de irrenunciável compromisso cristão: estar a serviço dos outros, especialmente dos pobres. A política é indispensável contributo para que se instaure um ordenamento social mais justo e coerente com a dignidade humana. Assim, impactados com os falimentos na política, se torna urgente investir na força moral das autoridades políticas. Isso significa exigir daqueles que estão no exercício do poder um agir ético, com força transformadora. Assim surgirão políticos credíveis e se tecerá um novo forro para a sociedade, alicerçando a autoridade da representação nos valores humanos e morais, sem artimanhas ou manipulações populistas e interesseiras. 

 É preciso adequadamente tratar os falimentos na política para curar um progressivo e trágico obscurecimento da consciência coletiva, que favorece um ceticismo capaz de duvidar, até mesmo, dos princípios fundamentais da lei moral. Esse descrédito pode precipitar, paulatinamente, a sociedade em um doloroso caos sociopolítico. Essa realidade caótica poderia ameaçar, até mesmo, o próprio ordenamento estatal. Sem pessimismos ou agouros, a preparação para a ida às urnas deve contemplar o reconhecimento dos falimentos na política para superá-los. Um itinerário que possibilitará o aprendizado de novas lições, oportunidade para uma qualificação social e política na sociedade brasileira, gestando, a médio e longo prazos, renovada consciência cidadã, além de novas e adequadas lideranças, capazes de estar a serviço da nação, dedicadas a construir um adequado patamar de convivência e de justiça social. 

 

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