Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Irmãos e irmãs, celebramos neste Décimo Quarto Domingo do Tempo Comum. A liturgia deste domingo nos apresenta um dos trechos mais consoladores de todo o Evangelho. Jesus dirige um convite que atravessa os séculos e chega até cada um de nós: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).
Vivemos em um tempo em que o cansaço se tornou uma característica da sociedade. Há o cansaço físico de quem trabalha muito; o cansaço psicológico provocado pelas preocupações; o cansaço espiritual de quem se afastou de Deus; o cansaço das famílias diante das dificuldades econômicas; o cansaço dos idosos por causa das enfermidades; o cansaço dos jovens diante das incertezas do futuro. Muitos carregam cruzes que ninguém conhece.
Diante dessa realidade, Jesus não promete uma vida sem dificuldades. Ele também não diz que retirará imediatamente todas as cruzes. O que Ele promete é algo muito maior: caminhar conosco. Quem leva a cruz sozinho acaba desanimando; quem a leva com Cristo encontra forças para continuar.
O Evangelho começa com uma oração de Jesus ao Pai: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).
Quem são esses “pequeninos”? Não são aqueles que possuem pouca inteligência ou pouca formação. Os pequeninos são aqueles que reconhecem que precisam de Deus. São os humildes de coração, aqueles que não colocam a confiança apenas em si mesmos, mas vivem abandonados nas mãos do Senhor.
Ao longo da história da salvação, Deus sempre escolheu os humildes. Escolheu Moisés, que dizia não saber falar (cf. Ex 4,10). Escolheu Davi, o menor entre seus irmãos (cf. 1Sm 16,11-13). Escolheu a Virgem Maria, que se definiu como a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1,38.48). Escolheu pescadores simples para serem os Apóstolos.
O orgulho fecha o coração para Deus; a humildade abre espaço para a graça.
Na primeira leitura, o profeta Zacarias anuncia um rei muito diferente dos reis da terra: “Eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento” (Zc 9,9).
Naquela época, os reis vitoriosos entravam nas cidades montados em cavalos de guerra. Jesus, porém, entra em Jerusalém montado em um jumentinho (cf. Mt 21,1-11), mostrando que o Reino de Deus não se estabelece pela violência, mas pela mansidão; não pela força das armas, mas pela força do amor.
Vivemos numa sociedade que muitas vezes valoriza a competição, o poder e o sucesso a qualquer preço. Cristo nos apresenta outro caminho: o caminho da humildade e do serviço.
Em seguida, Jesus faz um convite extraordinário: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29).
Na linguagem da época, o jugo era uma peça colocada sobre os bois para conduzi-los no trabalho. Era sinal de submissão.
Mas Jesus fala de um jugo diferente. Seu jugo é o Evangelho; é o compromisso de viver segundo os mandamentos de Deus; é aprender a amar, perdoar, servir, repartir, rezar, carregar a cruz de cada dia.
À primeira vista, isso pode parecer pesado. Entretanto, Cristo afirma: “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30).
Como isso é possível?
Porque quem ama não vive a obrigação como peso. Uma mãe não considera pesado cuidar do filho doente. Um pai trabalha com alegria para sustentar sua família. Quem ama faz sacrifícios sem reclamar.
Da mesma forma, quando amamos a Deus, os seus mandamentos deixam de ser um peso e tornam-se um caminho de liberdade.
São João escreve: “Os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5,3). Pesado é viver longe de Deus; pesado é carregar o peso do pecado; pesada é a consciência inquieta; pesada é a vida sem esperança.
Na segunda leitura, São Paulo recorda que somos chamados a viver segundo o Espírito e não segundo a carne (Rm 8,9-13). A carne, na linguagem paulina, representa tudo aquilo que nos afasta de Deus: o egoísmo, a soberba, a busca desenfreada dos prazeres, a indiferença religiosa.
Quem vive apenas segundo os desejos do mundo acaba experimentando um vazio interior. O Espírito Santo, porém, fortalece-nos para viver como filhos de Deus.
Neste mês de julho, muitas famílias entram no período de férias escolares. É tempo de descanso, de convivência familiar e, para alguns, de viagens. O descanso faz parte da vida humana e é necessário. O próprio Jesus convidava os discípulos: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31).
Entretanto, o descanso cristão não significa afastar-se de Deus. Podemos tirar férias do trabalho, da escola e dos compromissos cotidianos, mas nunca da vida de oração. Onde estivermos, continuemos participando da Santa Missa aos domingos, rezando em família e cultivando nossa amizade com Cristo.
O verdadeiro descanso não consiste apenas em interromper as atividades, mas em reencontrar a paz do coração. E essa paz somente Deus pode conceder.
Quantas pessoas possuem férias, conforto e recursos financeiros, mas continuam inquietas! E quantas, mesmo enfrentando dificuldades, conservam uma profunda serenidade porque colocam sua confiança no Senhor.
A Igreja também nos apresenta inúmeros exemplos de homens e mulheres que encontraram descanso em Deus. Santo Agostinho expressou isso de maneira admirável: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
É justamente esse repouso espiritual que Jesus oferece.
A Eucaristia é um dos lugares privilegiados desse encontro. Toda vez que participamos da Santa Missa, levamos ao altar nossos sofrimentos, preocupações, enfermidades, angústias e esperanças. Cristo acolhe tudo isso e nos fortalece com sua Palavra e com seu Corpo e Sangue.
Por isso, ninguém deve pensar que precisa resolver todos os seus problemas antes de procurar Deus. É exatamente o contrário. Devemos ir ao Senhor com nossas fraquezas, porque é Ele quem nos fortalece.
Talvez alguém esteja vivendo um momento difícil na família, no casamento, na saúde ou no trabalho. Talvez alguém esteja desanimado na fé. O convite de Jesus continua atual: “Vinde a mim.”
Ele não pergunta primeiro quais são os nossos pecados ou quantos erros cometemos. Antes de tudo, oferece acolhida, misericórdia e descanso para a alma.
Peçamos, neste domingo, a graça de sermos humildes de coração, confiando mais na providência de Deus do que em nossas próprias forças. Que saibamos colocar aos pés de Cristo todas as nossas preocupações e aprendamos d’Ele a mansidão, a humildade e a confiança.
Que a Santíssima Virgem Maria, a humilde serva do Senhor, nos ensine a caminhar sempre ao lado de seu Filho, para que, mesmo em meio às dificuldades da vida, experimentemos a verdadeira paz que somente Cristo pode dar.
Assim seja.
