Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
Não basta conhecer a Verdade, é preciso acolhê-la como parte integrante de nossa existência. O amor à verdade constituiu fator indispensável para adentrar suas entranhas, formulando categorias para chegar a ela com mais segurança e dispersando as ciladas do engano e do erro, as chamadas Fake News de hoje, nas redes sociais. Desde a Grécia Antiga, muitos pensadores procuraram conhecer e acolher a Verdade, dedicando-lhe toda a sua existência, a ponto até de oferecer a vida por ela, como foi o caso de Sócrates.
Para Platão, a verdade não estava no mundo real. Aqui, na verdade, fazemos a experiência, como que em sombras, do que está no mundo ideal. Ao contrário, seu discípulo Aristóteles compreendia que a verdade está presente neste mundo. Verdade é a adequação da coisa em si com a ideia que temos dela. Aristóteles compreendia que eram os homens que formulavam os conceitos a respeito das coisas para poder reconhecê-las: “dizer do que é que ele não é / e do que não é que ele é, é dizer o falso; dizer do que é que é / e do que não é que não é, é dizer o verdadeiro”.
Continua Aristóteles: “Se, com efeito, o homem existe, a proposição pela qual nós dizemos que o homem existe é verdadeira e, reciprocamente, se a proposição pela qual nós dizemos que o homem existe é verdadeira, o homem existe. Contudo, a proposição verdadeira não é de modo algum causa da existência da coisa; ao contrário, é a coisa que parece ser, de algum modo, a causa da verdade da proposição, pois é da existência da coisa ou da sua não existência que dependem a verdade ou a falsidade da proposição” (Categorias, 14b16-23).
Para Santo Agostinho, “a verdade e sua busca são o alimento da nossa alma”. Segundo o Bispo de Hipona, nada atrai mais a alma humana do que o desejo pela verdade. Nenhum homem suporta viver na mentira. “Que todos querem a verdade”, isso se comprova pelo fato de gostarmos de enganar, mas detestarmos ser enganados (cf. Conf. 10,23). Segundo ele, a Verdade Suprema é Deus, a Beleza que se encontra dentro do ser: “Tarde te amei, ó Beleza sempre antiga, sempre nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim, mas eu estava fora, e foi lá que Te procurei” (Conf. 10).
Santo Tomás de Aquino recolhe o raciocínio aristotélico na conceituação da verdade, em perspectiva bastante objetiva. Para ele, verdade “é a conformidade entre o intelecto e a coisa”. Ao mesmo tempo em que o Doutor Angélico acolhe a objetividade do ser que se evidencia diante da inteligência humana, ele retrata a importância do processo cognitivo humano que é capaz de apreender a essência desse ser manifestado. Ficam, assim, ressaltadas a verdade lógica e a verdade ontológica.
É a nossa inteligência que depende da verdade ontológica, com uma dependência real: “A verdade que se diz das coisas com relação ao intelecto humano; o que, para as coisas, é algo em certo modo acidental, porque suposto que não existisse nem pudesse existir o intelecto do homem, as coisas continuariam permanecendo em sua essência. Porém a verdade que se diz delas em relação ao intelecto divino lhes está inseparavelmente unida, pois estas não podem subsistir senão pelo intelecto de Deus, que as produz no ser” (Tomás de Aquino, De Veritate, q.1, a.5, c.). Em tal ponto, o filósofo se afasta da doutrina aristotélica porque reconhece uma verdade do ser, verdade que tem como princípio um Ser supremo. Via nesse Ser supremo Deus, o qual, por ser a própria perfeição, confere inteligibilidade aos seres e cognoscibilidade aos homens.
Na Filosofia Moderna, Heidegger vai compreender que o eixo do conhecimento é o ser enquanto clareira do aberto. Como nos ensinou J. Arduini: “E foi contemplando a clareira que se abre na floresta, que chegou a entender o homem como abertura orientada para o sentido do ser” (Destinação Antropológica, p. 85). Para J. Arduini, “Verdade não é apenas um princípio abstrato. Verdade é realidade existente, o fato concreto…” (Antropologia, p. 59). É essa realidade concreta, existente como “ser aí”, que precisamos experienciar e testemunhar para além de narrativas que não condizem com a realidade.
O Papa Leão XIV nos adverte: “o desinteresse pela verdade leva, lenta mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo, segundo o qual o súbdito ideal, como escreveu a filósofa Hannah Arendt, não é tanto aquele ideologicamente convencido, mas ‘aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência), nem a diferença entre verdadeiro e falso (que constituem os critérios do pensamento)’” (MH, 134). Por isso, importa perseverar na busca e na acolhida da Verdade, que liberta o ser humano do risco da falsidade e dos desvios da realidade.
E o Papa nos faz um forte apelo: “Permaneçamos fiéis à verdade! (…) É necessário abandonar uma visão individualista e técnica do homem, como se a realidade fosse pura matéria a ser moldada em função de interesses egoístas, tanto individuais como de grupo. (…) A fidelidade à verdade exige integrar as possibilidades oferecidas pela técnica num caminho de sabedoria, capaz de salvaguardar simultaneamente a dignidade de cada pessoa e o futuro da nossa Casa comum” (MH, 237). É preciso estar atento às falsas narrativas e às fake news, para caminhar em busca da Verdade a ser acolhida em nossa vida.
