Semear a generosidade da Palavra do Ressuscitado! 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

 

Ao meditarmos a Parábola do Semeador (Mt 13,1-9) nos deparamos com um detalhe na postura do agricultor divino que não pode passar despercebido: a sua imensa e irrestrita generosidade. O texto diz que Ele sai a semear e lança a semente por todos os lados. Ele não fecha as mãos. Ele não restringe o seu gesto ao pequeno canteiro que já está cercado, delimitado. O Semeador lança a semente sobre terrenos variados. Essa imagem ganha uma profundidade extraordinária quando a olhamos através da história da Igreja e, de modo especial, pela perspectiva de um dos maiores teólogos do século II: São Justino, o Mártir.  

Olhando para o mundo pagão de sua época, para a filosofia grega e para as diversas culturas, Justino compreendeu algo que ilumina perfeitamente esta parábola. Ele afirmou que o Filho de Deus, o Logos (a Palavra, o Verbo eterno), muito antes de se encarnar no ventre de Maria, já havia caminhado pela história da humanidade, espalhando as logoi spermatikoi, ou seja, as “sementes do Verbo” ou “sementes da verdade”. A exegese desse gesto generoso do Semeador nos mostra que Deus nunca deixou a humanidade desamparada. O desejo do infinito, a busca pelo sumo bem, os valores da justiça, do amor ao próximo, da oração e da contemplação que vemos em tantas tradições não-cristãs não são frutos do acaso. São sementes que o próprio Deus plantou no coração de todos os povos. 

Quando olhamos para o Budismo e seu profundo respeito pela vida e pela paz; quando observamos o Hinduísmo e sua busca constante pela transcendência; ou o Islã e sua reverência absoluta à soberania de Deus; e até as religiões indígenas com seu cuidado sagrado pela criação, nós, cristãos, devemos contemplar essas realidades com respeito, porque ali há uma semente que veio do nosso mesmo Semeador. Há “fragmentos” da Verdade espalhados pelo solo da história humana. O diálogo inter-religioso, portanto, nasce não de uma fraqueza da fé, mas do reconhecimento de que Deus age no coração da humanidade desde o princípio. No entanto, a parábola de Jesus nos traz uma advertência crucial: a semente é um início, mas ela não é o fim.  

Uma semente enterrada na terra ainda é uma promessa incompleta se não germinar e dar frutos. E aqui reside o coração da nossa fé e o contraponto necessário: embora as diversas religiões compartilhem do conhecimento da Verdade em alguns aspectos legítimos e belos, elas trazem consigo visões parciais, fragmentadas e, às vezes, misturadas com as limitações da própria cultura humana. Elas possuem a semente, mas a semente clama pelo fruto. Elas possuem reflexos de luz, mas o mundo precisa do Sol.  

Neste sentido, o cristianismo não olha para as outras religiões para condená-las, mas para convidá-las ao progresso. O conhecimento parcial e inicial que elas possuem deve caminhar rumo ao conhecimento pleno e definitivo. E essa plenitude tem um nome, um rosto e uma história: Jesus Cristo. Ele não é apenas mais um semeador ou mais uma semente entre tantas; Ele é o próprio Verbo encarnado. Em Cristo, a verdade não está em fragmentos; está por inteiro. Ele é Deus único e verdadeiro que se manifestou na história humana. Esta teologia das “sementes do Verbo” desenha com muita clareza a nossa postura no mundo atual, tanto na vivência da fé quanto na nossa atuação cidadã. 

Em uma sociedade plural somos chamados ao respeito e à convivência pacífica com quem pensa e crê de forma diferente. Não tratamos o outro como um inimigo, mas como alguém que também busca, ainda que tateando, o Criador, nisto somos fermento na massa. Todavia, respeito não significa dizer que “todas as religiões são iguais” ou que “tanto faz o caminho, desde que faça o bem”. Se fizermos isso, trairemos o Evangelho e enterraremos a semente de Cristo. O cristão sabe que recebeu um tesouro sem igual: o próprio Cristo. O nosso amor pelo próximo deve nos impulsionar a desejar para ele a mesma alegria que temos: a de conhecer a Jesus, nisto somos sal que dá sabor. Ao cabo, nossa missão não é destruir o solo onde as sementes das outras religiões já brotaram, mas ser como a chuva e o sol que ajudam esse solo a se abrir para receber a plenitude de Cristo, ajudando o outro a dar o nome correto Àquele que ele já adorava sem saber (cf. At 17,23), nisto somos luz do mundo, cuja fonte é sempre o próprio Jesus, luz dos povos. 

Irmãos e irmãs, que o Espírito Santo nos conceda um olhar semelhante ao de São Justino e ao do Semeador do Evangelho; um olhar que sabe ver a beleza do Sumo Bem nos fragmentos além-fronteiras, mas que acima de tudo sabe reconhecer em Jesus o Caminho, a Verdade e a Vida, o Deus verdadeiro que sendo o mesmo ontem, hoje e sempre faz-se um de nós para nos salvar e nos conduzir à colheita abundante e definitiva do Reino preparado desde a fundação do mundo. Amém! 

 

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