Sejamos semeadores constantes e generosos da Palavra de Deus! 

Dom Diamantino Prata de Carvalho
Bispo Emérito da Campanha (MG)

 

Irmãos e irmãs, a paz de Cristo. A liturgia deste XV Domingo do Tempo Comum, apresenta-nos Jesus sentado à beira-mar. A multidão é tão grande que Jesus precisa entrar em um barco para ensinar e ali Ele conta uma das histórias mais conhecidas: a Parábola do Semeador. Para compreendermos a profundidade desta mensagem para os nossos dias, tanto para a nossa fé íntima quanto para a nossa atuação na sociedade, proponho que contemplemos este texto sagrado através de duas lentes distintas: a agronômica e a exegética. 

Um engenheiro agrônomo contemporâneo ao ler Mt 13-1-9, poderá reagir com espanto, ou até com certa indignação profissional. Na lógica da agronomia moderna, pautada pela eficiência e pelo retorno sobre o investimento, o semeador da parábola seria um tanto incompetente. A agricultura de precisão exige análise de solo, correção de acidez, controle de pragas e o plantio calculado. Nenhum agricultor em sã consciência desperdiça sementes caras jogando-as no asfalto (a beira do caminho), em cima de lajes de pedra ou no meio de matagais cheios de espinhos, antes investe-se onde o solo já provou ser bom, onde há garantia de colheita. A sociedade em que vivemos opera exatamente por essa lógica “agronômica”.  

Nós vivemos a ditadura da eficiência e do mérito. Investe-se tempo, afeto e recursos nas pessoas e nas causas que dão retorno garantido. Exige-se “terra boa” antes mesmo de se abrir a mão para soltar a semente. Se o outro é “solo pedregoso” (difícil de lidar, marginalizado, de opiniões divergentes) ou “espinhoso” (problemático, imerso em vícios ou carências de diversos tipos), a tendência cidadã e institucional é reter a semente. Logo se abandona o terreno. Mas quando trocamos as lentes e passamos da agronomia para a exegese bíblica descobrimos algo maravilhoso: a parábola não é sobre um agricultor ruim. É sobre um Deus generosamente bom. Jesus, em um pequeno, mas profundo exercício de exegese, nos revela que a Semente é a Palavra de Deus e o Semeador é o próprio Deus; o que, de certo modo, desfaz a figura de Deus como um empresário do agronegócio preocupado com o desperdício; antes, Ele é um Pai cuja graça é infinita. 

A perspectiva hermenêutica nos mostra que o Semeador joga a semente em todos os terrenos porque Ele não desiste de nenhum solo. Ele não prejulga a terra, fazendo recordar que da pedra pode jorrar água corrente; que dos espinhos duros da vida, pode-se obter a honra da coroa de quem reina pelo serviço gratuito. Assim que a semente é espalhada com uma generosidade quase irresponsável aos olhos humanos, porque o amor de Deus não se retém, antes se dá sem medida. E o que acontece quando cruzamos essas duas perspectivas na nossa vida hoje?  

Como cidadãos, precisamos ir além da “eficiência”. Na nossa vivência cidadã, a pura agronomia social nos ensina a descartar os improdutivos. Mas a ética do Reino nos chama a semear onde ninguém mais quer plantar. Uma sociedade justa não se constrói apenas subsidiando “terras boas” (bairros nobres, instâncias intelectualizadas, setores lucrativos). A verdadeira cidadania, inspirada pelo Evangelho, exige que lancemos as sementes da educação, da saúde, da dignidade, da escuta e do respeito também nas periferias existenciais e geográficas, nos asfaltos da exclusão e nos espinhos da desigualdade. A graça não exige que o pobre ou o marginalizado “mereça” a semente; a semente é um presente conferido pelo amor do Semeador. 

Como cristãos, precisamos ser semeadores generosos. Muitas vezes, irmãos nossos querem fazer das comunidades canteiros exclusivos de terra fértil, assumindo o papel de agrônomos calculistas do Espírito, na contramão do Evangelho que nos proíbe reter as sementes do Verbo. Nosso dever, caros irmãos, antes de tudo, é amar, acolher e testemunhar. O resultado (a colheita a trinta, sessenta ou cem por um) pertence a Deus. A nós, cabe a alegria e o suor da semeadura constante, indiscriminada e generosa. Tal postura nos ajuda também a lembrar que nenhum de nós é terra boa o tempo todo. Em alguns dias, quando o cansaço bate ou a dor aperta, nosso coração vira beira de caminho e a esperança é roubada. Em outros, na correria do trabalho e no fascínio pelo consumo, nos tornamos um canteiro de espinhos, onde a fé é sufocada. A grande notícia da parábola é que o Semeador continua passando pelas nossas vidas, todos os dias, lançando sementes novas, esperando pacientemente que permitamos ao Espírito Santo arar a nossa terra.  

Neste sentido, irmãos, roguemos a Deus a graça de não nos limitar pela lógica que mede tudo pelo lucro e pelo retorno imediato. Que possamos abraçar a agronomia da graça. Que sejamos terra boa para receber o amor de Deus, e semeadores incansáveis, espalhando justiça, paz e esperança numa sociedade que tanto anseia por novas colheitas. Assim seja! 

 

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