Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Nessa parábola delicada Jesus não começa falando de Deus, da fé ou do coração. Ele nos convida a caminhar com um homem comum, “um semeador que saiu para semear” (Mt 13,3; Mc 4,3; Lc 8,5). A narrativa conduz para além daquilo que os olhos conseguem ver. E, quando a história terminar, perceberemos que o campo nunca foi um campo, a semente nunca foi semente, e o semeador não era um agricultor.
Nas frases ditas tudo parece comum. O gesto é antigo, repetido incontáveis vezes ao longo da história. Quem o observa imagina que a parábola tratará da agricultura. Entretanto, como acontece tantas vezes no Evangelho, o visível é a porta de entrada para uma realidade interior.
O semeador não escolhe previamente onde cada grão cairá. Enquanto caminha, parte da semente encontra o caminho endurecido; outra cai entre pedras; outra, entre espinhos; outra, enfim, encontra terra boa (Mt 13,4-8). Aos olhos de um administrador competente, parece desperdício. Aos olhos de Cristo, revela-se um dos traços marcantes da ação de Deus.
A Palavra não é distribuída segundo cálculos de eficiência. Ela é oferecida generosamente. Deus não anuncia o Evangelho somente aos que parecem promissores, nem reserva sua graça aos que já demonstram virtudes. Sua misericórdia alcança todos.
Mais tarde, quando explica a parábola aos discípulos (Mt 13,18-23), Jesus realiza um movimento espantoso. A narrativa muda discretamente o patamar. Descobrimos que o verdadeiro protagonista não é o agricultor, mas o próprio ouvinte. O solo passa a representar as diferentes disposições de acolhida da Palavra.
O caminho endurecido simboliza o coração que perdeu a capacidade de acolher. A Palavra permanece na superfície da existência e logo é levada embora.
O terreno pedregoso diz respeito ao entusiasmo, sem profundidade. Há alegria inicial, mas a profundidade capaz de sustentar a fidelidade ao longo do tempo.
Os espinhos revelam outra realidade ainda mais sutil. A Palavra chega a germinar, mas precisa disputar espaço com preocupações, ambições e seduções que lentamente sufocam sua vitalidade.
A terra boa, por sua vez, produz fruto. Não porque seja perfeita, mas porque permanece aberta, profunda e perseverante.
Entretanto, a parábola não termina aí. Há um detalhe que muitas vezes passa despercebido. Mesmo nas terras ruins acontece alguma coisa. Sobre o caminho, a semente chega a cair. Entre as pedras, ela chega a brotar. Entre os espinhos, cresce por algum tempo. A esterilidade não é ausência completa de vida, nela, apenas o processo interrompido.
Essa observação modifica a compreensão da missão da Igreja do pregador.
O missionário não trabalha pelos resultados imediatos. A Palavra pode permanecer invisível durante anos e até parecer perdida. Pode ser sufocada por circunstâncias que ainda não encontrou forças para vencer. Ainda assim, ela passou por ali. Tocou aquele coração e deixou na memória, uma inquietação, uma pergunta que talvez somente Deus conheça. Por isso o semeador continua semeando.
A esperança cristã não depende dos resultados imediatos. Quem anuncia o Evangelho sabe que a fecundidade pertence ao tempo de Deus. A missão consiste em semear com fidelidade, sem controlar a colheita.
Também não devemos interpretar as terras ruins como categorias excludentes de pessoas. Jesus não afirma que existem pessoas definitivamente endurecidos, definitivamente pedregosas ou definitivamente espinhosas. O solo do coração pode mudar. Um caminho pode ser revolvido pela chuva. A terra cheia de pedras pode ser preparada. Os espinhos podem ser arrancados. A conversão consiste precisamente nessa lenta transformação do terreno interior.
O Evangelho não descreve apenas o homem procurando Deus. Revela sobretudo Deus procurando o homem. O semeador não espera que o campo se torne perfeito para iniciar seu trabalho. É sua própria passagem que inaugura a possibilidade da colheita.
Cada semeadura é um novo punhado de sementes lançado sobre a história. Algumas parecerão desaparecer imediatamente. Outras produzirão apenas um pequeno broto. Outras serão sufocadas pelas urgências do mundo. Mas haverá sempre uma parte que encontrará terra preparada e dará fruto “cem, sessenta e trinta por um” (Mt 13,8). Por isso, o discípulo não será medido pela quantidade da colheita, mas pela perseverança em semear.
O Reino de Deus cresce uma semente de cada vez, um coração de cada vez, até que toda a terra descubra que sempre esteve sendo preparada pelo amor paciente do seu Senhor. Por isso “que o semeador saiu para semear” (Mt 13,3).
