Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
A proposta da civilização do amor ocupa o centro do capítulo conclusivo da Encíclica Magnifica Humanitas. Para o Papa Leão XIV, ela não é uma utopia ingênua, mas o caminho mais realista para preservar a humanidade numa época marcada pela inteligência artificial, pela polarização, pela cultura da força e pela normalização da guerra (cf. MH, 185-187; 210).
A expressão foi cunhada por São Paulo VI durante a Guerra Fria e é retomada por Leão XIV para responder aos desafios da era digital. O Papa observa que, embora as novas tecnologias tenham aproximado pessoas e acelerado a comunicação, elas não tornaram a humanidade automaticamente mais fraterna. Ao contrário, a crescente interdependência exige transformar a simples conexão tecnológica em verdadeira solidariedade entre os povos (cf. MH, 186-187).
Mas o que significa construir uma civilização do amor? Segundo o Papa, significa fazer da caridade o princípio inspirador da vida social. O amor não pode permanecer apenas como virtude privada; deve dar origem a estruturas de justiça, inspirar a política, a economia, a cultura e promover a fraternidade, reconhecendo cada pessoa e cada povo como parceiros na construção do bem comum. Assim, a convivência deixa de ser mera coexistência de interesses para tornar-se autêntica comunhão (cf. MH, 186-187).
Essa proposta não é idealismo ingênuo. Leão XIV afirma que a verdadeira ingenuidade consiste em acreditar que a paz poderá ser garantida indefinidamente pelas armas, pela lógica da força ou pela superioridade tecnológica. A cultura do poder normaliza a guerra, enfraquece o direito internacional, alimenta a corrida armamentista e reduz as vítimas a simples números (cf. MH, 188-205). Em contraste, a paz é fruto da justiça e da caridade e permanece sempre uma possibilidade real (cf. MH, 205; 210).
Para concretizar esse projeto, o Santo Padre apresenta cinco atitudes fundamentais. A primeira é desarmar as palavras, combatendo o ódio, a mentira e a polarização, porque a paz começa na maneira de falar e comunicar (cf. MH, 214). A segunda é construir a paz na justiça, já que não existe paz verdadeira sem respeito aos direitos e à dignidade humana (cf. MH, 215). A terceira consiste em assumir o olhar das vítimas, colocando no centro o sofrimento das pessoas atingidas pela guerra e pela violência (cf. MH, 216-217). A quarta é cultivar um saudável realismo, que rejeita tanto a ingenuidade quanto o cinismo e busca soluções concretas para prevenir conflitos (cf. MH, 218). Finalmente, Leão XIV convida a revitalizar o diálogo e o multilateralismo, fortalecendo a diplomacia, as negociações e as instituições internacionais como caminhos permanentes para a paz (cf. MH, 219-226).
A civilização do amor nasce da fidelidade às pequenas escolhas de cada dia: dizer a verdade, promover a justiça, respeitar a dignidade de cada pessoa, colocar a tecnologia a serviço da vida, educar para a paz e cultivar a esperança. Como o grão de mostarda do Evangelho, ela cresce silenciosamente, mas transforma a história (cf. MH, 210-213).
Ao concluir a Encíclica, Leão XIV recorda que a paz é dom de Deus, mas também responsabilidade humana. O grande desafio do nosso tempo é fazer com que o extraordinário progresso tecnológico seja acompanhado por um progresso ainda maior na fraternidade, na justiça e no amor (cf. MH, 228).
