Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Se no domingo anterior a generosidade do Semeador nos encantou ao lançar a semente por todos os caminhos, o XVI Domingo do Tempo Comum (Mt 13,24-43) nos coloca diante de um realismo desconcertante. O agricultor divino continua generoso, mas o cenário mudou: o campo da história não é um laboratório isolado. É um campo em disputa. Ao escutarmos a Parábola do Joio e do Trigo, deparamo-nos com o mistério do mal que cresce silencioso ao lado do bem. E, novamente, a postura do Senhor do campo nos oferece uma chave exegética e espiritual profunda para compreendermos nossa missão no mundo.
Já no germinar do broto as duas plantas, joio e trigo são visualmente idênticas. Somente quando a espiga se forma é que a diferença se revela: o trigo curva-se pelo peso do grão nutritivo; o joio permanece ereto, leve, porém carregado de toxicidade. A primeira reação dos servos é o impulso purista: “Queres que vamos arrancar o joio?” (Mt 13,28). É o desejo humano de criar um mundo perfeito à força, de separar imediatamente os “bons” dos “maus”. Mas a resposta do divino agricultor é um freio à nossa intolerância: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29-30)
Se no domingo passado aprendemos sobre o respeito às sementes do Verbo presentes fora de nossas fronteiras, hoje o Evangelho nos ensina a paciência histórica. Deus não tem pressa. Ele não destrói o pecador para salvar a colheita; Ele prefere tolerar o joio a correr o risco de perder um único grão de trigo. Esta é a beleza da misericórdia divina. Na botânica da graça há espaço, tempo e recursos para o impossível, onde o coração humano é o verdadeiro substrato, terreno fecundo e generoso no qual não há um corte externo que o divida e o reduza a um dualismo venenoso entre “puro” e “impuro”. O joio e o trigo crescem dentro do mesmo peito, na nossa própria comunidade e nas nossas famílias. A pressa em arrancar o mal com violência muitas vezes destrói as possibilidades da conversão. Deus nos dá o tempo da história como um espaço de paciência e reconciliação.
Para que não desanimemos diante da presença sufocante do mal, Jesus ainda anexa duas parábolas curtas de imensa força esperançosa: o grão de mostarda e o fermento na massa (Mt 13,31-33). O grão de mostarda, a menor das sementes, torna-se um arbusto frondoso, trazendo consigo a mensagem de que o Reino de Deus acolhe e protege, junto do qual Jesus nos compara aos humildes pássaros em busca de abrigo. Por outro lado, o fermento na massa é invisível, oculto na farinha, mas que leveda toda a massa, trazendo consigo a mensagem de que o Reino de Deus transforma as estruturas por dentro. Como um todo, ambas parábolas mencionadas ao longo de Mt 13,24-43 nos recordam que, enquanto cristãos, não somos chamados a ser uma seita isolada em um “gueto de puros”, mas sim um fermento misturado à massa, rincões mundo a fora, levedando e fazendo crescer o Reino de Deus que se destina a todos em grande escala.
Portanto, irmãos e irmãs, a exegese deste itinerário litúrgico nos convoca a uma maturidade evangélica profunda dedicada a renunciar ao julgamento apressado, pois não nos cabe o papel de ceifadores antes do tempo, antes somos chamados a progredir na convicção de que o juízo pertence ao Filho do Homem, abraçando a paciência pastoral, crescendo no convívio com o contraditório, com o diferente e até com o mal sem perder a paz e sem deixar de produzir o bom trigo, confiando, assim, na força do que é pequeno, do bem que atua de forma discreta, mas cuja sua vitória final é garantida.
Salvaguardados por tal dinâmica evangélica, peçamos ao Senhor que Ele nos conceda a sabedoria do divino trigal, que mesmo cercado pelas pressões do joio maligno, continua a nos ensinar a humildade diante do sábio Semeador, a fim de que, ao final dos tempos, carregados de frutos, possamos brilhar como os santos de Deus, apoiados na graça e na misericórdia, mais que em pretensões puramente humanas, logrando crescer e frutificar no tempo certo, no tempo da graça, no tempo de Deus. Amém.
