Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
O Tesouro Escondido e a Sabedoria do Coração:
17º Domingo do Tempo Comum
Uma alegria simples e profunda nos convida hoje a olhar para dentro de nós mesmos e perguntar: o que realmente pedimos a Deus quando rezamos? A liturgia deste 17º Domingo do Tempo Comum nos apresenta três textos que, juntos, formam um convite claro à conversão do olhar. Não se trata de multiplicar pedidos, mas de purificar o desejo. E é exatamente isso que a Palavra de Deus quer ensinar ao povo que peregrina nesta cidade do Rio de Janeiro, tantas vezes marcada pela pressa, pela ansiedade e pela busca de segurança em coisas que passam.
A primeira leitura – 1Rs 3,5.7-12 – narra um episódio comovente da vida do jovem rei Salomão. Deus aparece a ele em sonho e lhe faz uma oferta generosa: “Pede o que desejas, e eu te darei”. Poderia ter pedido riquezas, longa vida, vitória sobre os inimigos. Mas Salomão, reconhecendo sua pequenez diante da grandeza da missão que recebeu, pede um coração compreensivo, capaz de discernir entre o bem e o mal. E o Senhor se agrada com esse pedido, porque nele reconhece a verdadeira sabedoria: aquela que não busca o próprio proveito, mas o bem do povo confiado aos cuidados de quem governa.
Essa cena nos toca de modo particular. Quantas vezes, em nossas famílias, em nossas comunidades, em nosso trabalho, somos chamados a decidir e a discernir! Como gestores, como pais, como educadores, como responsáveis por outras pessoas, sentimos muitas vezes o peso da responsabilidade e a
insegurança diante das escolhas difíceis. A oração de Salomão nos ensina o caminho: pedir a Deus não a solução pronta, mas a sabedoria do coração para reconhecer o que é justo e o que conduz à vida.
O Salmo responsorial, tirado do longo Salmo 118(119), nos ajuda a interiorizar essa mesma disposição de alma. O salmista canta o amor à lei de Deus, afirmando que ela vale mais do que o ouro e a prata. Não é a lei como imposição fria, mas como caminho de liberdade e de luz: “Vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina, ela dá sabedoria aos pequeninos”. Aqui está uma bela chave de leitura para todo este domingo: a verdadeira sabedoria não nasce da erudição humana, mas da abertura simples e confiante à Palavra de Deus, que ilumina até os que se consideram pequenos e limitados.
Na segunda leitura – Rm 8,28-30 –, São Paulo nos oferece uma das páginas mais consoladoras de toda a sua carta aos cristãos de Roma. Ele afirma, com força e ternura, que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, porque fomos predestinados a sermos conformes à imagem de seu Filho. Isso não significa que tudo o que acontece seja bom em si mesmo, pois todos conhecemos o sofrimento, a doença, a perda e a dificuldade. Significa, porém, que Deus, em sua providência amorosa, é capaz de transformar até as circunstâncias mais duras em caminho de crescimento e de santidade, para quem se deixa conduzir por Ele com confiança.
Em nossa querida Arquidiocese, tantas vezes tocada pela dor da violência e pelas desigualdades que marcam a vida urbana, esta palavra de Paulo se torna bálsamo e força. Deus não abandona seu povo. Ele caminha ao lado de cada família, de cada comunidade, de cada pessoa que atravessa a noite escura da provação, e transforma tudo, no tempo certo, segundo seu projeto de amor.
E chegamos, então, ao Evangelho – Mt 13,44-52 –, que Jesus nos apresenta com três pequenas parábolas cheias de sabedoria e de beleza. O Reino dos Céus, diz o Senhor, é como um tesouro escondido no campo, ou como uma pérola preciosa. Quem os encontra vende tudo o que tem, cheio de alegria, para adquiri-los. Não há aqui sacrifício amargo, mas alegria transbordante! Aquele que descobre o valor incomparável do Reino não sente que está perdendo algo, mas que está ganhando tudo.
Quantas vezes encontramos pessoas que, ao descobrirem o Evangelho de verdade, transformam radicalmente sua existência, e o fazem com alegria, não com peso! É assim que deveria ser também nossa relação com a fé: não um conjunto de obrigações a cumprir, mas um tesouro que enche o coração de sentido e de esperança.
A terceira parábola, a da rede lançada ao mar que recolhe peixes de todo tipo, nos recorda que a Igreja é, ainda nesta vida, um lugar onde convivem o trigo e o joio, os bons e os maus peixes, e que o julgamento definitivo pertence a Deus, no fim dos tempos. (queiramos ser peixes bons…) Isso deve nos livrar de toda tentação de sermos juízes precipitados dos outros, e nos convidar, antes, à humildade e à misericórdia, sabendo que também nós precisamos, todos os dias, da graça da conversão.
Jesus conclui com uma imagem preciosa: o discípulo do Reino dos Céus é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. Isto é, a sabedoria cristã não descarta a tradição, mas também não teme a novidade do Espírito. Ela sabe unir a riqueza recebida dos antepassados com a criatividade necessária para anunciar o Evangelho no tempo presente.
Notemos, ainda, que neste domingo se omite a memória de Santos Joaquim e Ana, pais da Bem-aventurada Virgem Maria, porém celebramos o dia
dos avós e dos idosos, mas não podemos deixar de lembrar, ao menos brevemente, sua bela vocação: foram eles os primeiros educadores na fé daquela que geraria o Salvador. Que sua intercessão nos ajude a ser, em nossas famílias, semeadores de fé simples e verdadeira, como eles foram. Que, a exemplo dos avós de Jesus, São Joaquim e Sant’Ana, nossos avós e idosos possam ser venerados, acolhidos e cuidados com dignidade que merecem pelo grande testemunho que deram na vida como transmissores da fé católica.
Que este domingo nos encontre pedindo, como Salomão, o coração sábio que discerne o bem. Que sejamos capazes de reconhecer, como o homem da parábola, o tesouro imenso que é o Reino de Deus presente em nosso meio, e que a alegria dessa descoberta nos impulsione à missão. Nossa cidade, com suas alegrias e seus desafios, precisa de testemunhas que vivam essa sabedoria evangélica com simplicidade e esperança.
Que Nossa Senhora da Penha, mestra de escuta e de discernimento, nos ajude a guardar a Palavra no coração, como ela guardou. E que, unidos como um só povo, “Ut Omnes Unum Sint”, sejamos sinais vivos do amor de Deus nesta cidade que Ele tanto ama.
