Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)
A Palavra de Deus é viva e eficaz e ela perpassa as diversas camadas de nossa vida, nos mais diversos âmbitos. Domingo a domingo buscamos nela e em comunhão com ela pela Sagrada Eucaristia as luzes que necessitamos para os diversos contextos a que nos vemos submetidos enquanto coletivo que somos. Não só olhando para as escolas, as famílias e a sociedade civil, a exegese do capítulo 13 de São Mateus nos incita também a um olhar especial, que não se desdobra unicamente para fora dos muros da Igreja, mas que se volta também para dentro desta, com o intuito de fornecer alimento espiritual para a vida comunitária, pastoral e teológica dos fiéis.
Sem fechar os olhos para o tempo em que vivemos, notamos que sopram em nossos dias ventos dolorosos de divisão, tentações de cisma, desconfianças em relação ao Magistério, julgamentos mútuos e polarizações que ferem a túnica inconsútil de Cristo. Grupos se entrincheiram em rótulos, arvorando-se como os “únicos católicos verdadeiros”, enquanto acusam seus irmãos de heresia ou de retrocesso. É precisamente no meio dessa tempestade que a pedagogia de Jesus nas parábolas nos oferece o remédio e a direção.
Para compreender o alcance da liturgia deste domingo, precisamos voltar ao contexto da comunidade de São Mateus no primeiro século. Aquela Igreja nascente enfrentava fortes tensões: a convivência entre judeus-cristãos e gentios-cristãos, divergências sobre o cumprimento da Lei e o desafio de lidar com a fragilidade de seus próprios membros. Jesus responde a essas tensões no capítulo 13 com a teologia da Igreja como um corpo de comunhão que caminha no tempo.
A rede de arrasto recolhe toda espécie de peixes. Na intenção do Evangelista, a rede é o ícone da própria Igreja. A Igreja não é um clube de puros, nem uma seita de eleitos que pensam exatamente da mesma forma sobre questões secundárias. Ela é o espaço imenso da misericórdia de Deus, onde convivem diferentes sensibilidades espirituais, carismas, liturgias, sotaques. A parábola ensina que os pescadores esperam a rede chegar à praia para fazer o discernimento. O grande risco eclesial, que ao longo da história gerou tantos cismas, é o desejo impaciente de “limpar a Igreja” antes do tempo, arrancando o joio com as próprias mãos e, no processo, destruindo o trigo.
Quando um fiel, sacerdote ou bispo se coloca acima do Papa e do Colégio Episcopal para decidir quem está “fora” da Igreja, ele abandona a paciência do Redentor e assume a arrogância do juiz. Em contraponto a isto, o versículo 52 culmina na figura do escriba que tira do seu tesouro “coisas novas e coisas velhas”. Esta é a perfeita definição do desenvolvimento do dogma e do Magistério da Igreja! O depósito da fé é vivo. A Tradição não é um museu de cinzas, mas a salvaguarda do fogo, que dialoga com as perguntas de cada época guiada pelo Espírito Santo. Como traduzir essa hermenêutica para a nossa vivência diária nas paróquias, movimentos, redes sociais e meios acadêmicos da Igreja hoje?
A rede recolhe toda espécie de peixes, o que nos indica o caminho da acolhida do diferente, da diversidade, expressa nos diferentes carismas, nas diferentes liturgias e culturas. Fora do mar, na beira da praia, cabe o discernimento que, embasado na graça divina, supera toda tentação de cisma, escapando a condenações apressadas. Em complemente, o tesouro das coisas novas e velhas revela-nos a importância da Caridade na Verdade, a qual abastece a fidelidade à Sagrada Tradição, ao Magistério da Igreja e ao Santo Padre. A riqueza da Igreja Católica sempre esteve em sua pluralidade harmônica. O rigor e o silêncio dos monges, a ação social dos itinerantes, a devoção clássica e a efervescência das novas comunidades, os ritos e sensibilidades litúrgicas das comunidades que se remetem a modos pré-conciliares, tudo isso cabe no barco de Pedro, afinal, a diversidade de dons não é uma ameaça à unidade; é a prova da plenitude do Espírito Santo.
A unidade católica não é uniformidade ideológica, mas comunhão na mesma fé, nos mesmos sacramentos e no amor ao Sucessor de Pedro. Contudo, alguns correm o risco de transformar a defesa da fé em uma arma de destruição do irmão, onde Verdade sem Caridade torna-se fundamentalismo, frieza e escândalo para os pequeninos. Não esquecendo, claro, que Caridade sem Verdade se torna relativismo e sentimentalismo vazio. Mas quando discordarmos de uma opinião teológica ou de uma orientação pastoral, o Evangelho nos exige a correção fraterna, o respeito, a oração e a obediência eclesial, jamais a humilhação pública, a insubordinação ou a pregação do desprezo.
Irmãos, o diabo é por definição aquele que divide, que espalha a suspeita e cria o cisma. Cristo, ao contrário, reza na véspera de sua paixão: “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 21). O tesouro precioso e a pérola de grande valor que encontramos não é o nosso grupo, o nosso canal, o nosso movimento ou a nossa preferência litúrgica individual: a pérola é o próprio Cristo ressuscitado, presente no Corpo Místico da sua Igreja.
Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja e Mãe da Unidade, interceda por nós. Que ela nos alcance a graça de um coração verdadeiramente segundo o coração de Cristo, grande como a rede do Evangelho, paciente como o Criador para a com criação e apaixonado pela comunhão com o Santo Padre, com os nossos bispos, os atuais e os futuros, de modo a guardarmos a fé na verdade, qual rede que não se rompe, antes se fortalece pelo mais sublime amor, vínculo da perfeição. Amém.
