Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
A realidade do mundo aí está, qual um caleidoscópio fascinante, a extasiar-nos e a desafiar-nos. A pluralidade dos tempos atuais nos provoca e nos instiga. É uma realidade de valores ambivalentes, paradoxais e dissonantes. O horizonte nos descortina uma variedade de vantagens jamais imaginadas: os avanços tecnológicos, a velocidade das comunicações, a Inteligência Artificial, a comodidade da mobilidade, a praticidade da vida diária, o aprimoramento da medicina, o conforto nas habitações e até no mundo do trabalho… Sem dúvida, as novas culturas têm melhorado muito a vida humana na face da Terra.
Infelizmente, só uma pequena parcela da sociedade tem acesso à maioria dessas vantagens. Enquanto uma elite se satisfaz com as benesses do mundo pós-moderno, uma imensa multidão de lázaros jaz nos mocambos da civilização. É triste ver o poder destruidor da miséria, da violência, da falta de acesso aos meios de saúde, do desrespeito pela dignidade do ser humano. Lamentavelmente, aí nos deparamos com a ambiguidade deste nosso mundo, criado por Deus para a felicidade do ser humano, mas que, paradoxalmente, acaba gerando o seu infortúnio.
Esse terrível infortúnio não é da vontade de Deus, que “viu que tudo era bom” (Gn 1,24-25), “era muito bom” (Gn 1,31), até que sua criatura passasse a usufruir mal de seu livre arbítrio (cf. Gn 3,1-7). Começava, então, uma história de opressão, dominação, poder, interesses, renegando o sonho de Deus para sua criatura. Eis o que vemos no cenário da história: alegrias e dores, sonhos e opressões, vitórias e derrotas. Mas a nossa esperança é saber que um dia todo o mal será derrotado e que o Reino de Deus terá a última palavra sobre a história. Sim, acreditamos que “outro mundo é possível”.
Para criarmos as condições deste outro mundo possível, não basta mudar a ordem do poder constituído. Essa tentativa já foi feita em várias nações, e o resultado foi decepcionante. É preciso mais do que isso. É preciso investir fortemente na educação. Não apenas naquele modelo convencional, centrado na transmissão de conhecimento e na pesquisa, reduzido a um cientificismo. Trata-se, antes, de uma educação que seja voltada para a formação interior, para a dignidade humana e para os valores perenes, como o respeito e o cuidado do outro, a justiça, a honestidade, a ética e a solidariedade. Uma educação orientada para o exercício da cidadania, para a promoção do bem comum e para o compromisso com a coletividade.
Se queremos um mundo novo, precisamos formar novos cidadãos, responsáveis pelo hoje da história humana. Para tanto, não basta que se preocupe apenas com os destinos financeiros do mundo ou com os lucros que as elites podem obter nesses momentos de crise. É preciso “avançar para águas mais profundas” (Lc 5,4). E isso significa viabilizar reformas e políticas públicas que superem o clientelismo, a manutenção do status quo, a calmaria da estagnação, a cultura da corrupção. É preciso avançar numa política de transferência de renda, diminuindo o profundo fosso entre opulência e miséria. É preciso ter coragem para inovar e para instaurar uma nova ordem social e democrática à luz de princípios éticos e evangélicos.
O Papa Leão XIV, na esteira de seu Antecessor, tem abordado essas ambiguidades e propõe linhas de ação para superar o estado de descarte de seres humanos. Diz ele: “Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência ‘que não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias’ (EG, n. 202). A falta de equidade ‘é a raiz dos males sociais’ (EG, n. 202). Com efeito, ‘muitas vezes constata-se que, de fato, os direitos humanos não são iguais para todos’ (FT, n. 22)” (DT, n. 94).
Na sua Encíclica, o Papa Leão XIV nos exorta à edificação de tempos novos: “A esperança que anunciamos vem do céu ‘para gerar uma nova história aqui embaixo’, precisamente por isso, quem acredita se esforça para que, em vez de desigualdades, se abra espaço a uma maior justiça e ‘em vez da indústria da guerra, se afirme o artesanato da paz’” (MH, n. 240). E exorta o Papa: “o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém aberta, em cada época, a possibilidade de se tornar história de salvação à luz da Encarnação” (MH, n. 245).
O Documento 114 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026/2032 – trata da educação como fator preponderante para a transformação das realidades. Diz-nos o texto: “A educação humanista cristã também nos convida a acolher a todos, especialmente aqueles que vivem fragilidades, dores, migrações, pobreza, deficiências ou exclusões. Cada vida é um dom único que merece ser respeitado, protegido e acompanhado. Uma escola solidária é um ‘lugar seguro’, onde ninguém se sente descartado e todos encontram espaço para reconstruir a esperança” (Doc. 114, n. 208).
