Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)
Uma dos grandes desafios da mudança de época, registrado no documento de Aparecida é a rapidação da história (é o fenômeno social e psicológico de aceleração da vida contemporânea e da informação, que resulta em indivíduos sobrecarregados), dos ciclos da vida, tudo se torna corrido, uma ciranda de movimento sem fim.
Mahatma Gandhi observava, quando manifestava: “A vida não se limita a ir cada vez mais rápido!” Uma das propostas ou grandes orientações da Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV é a preservação e salvaguarda da humanidade.
O movimento cultural “Devagar” ou em inglês “Slow” propõe uma marcha rumo não só a reduzir a velocidade e frenesí da nossa vida atual, mas torná-la harmoniosa, equilibrada e certamente mais humana. Já em outro tempo Santo Agostinho profetizava: “Corres ligeiro e sois muito rápido, mas corres fora dos trilhos”. Trata-se de retornar a uma jornada mais simples, sem pressa, com tempo de digerir, saborear e apreciar a beleza do que existe.
De uma educação mais lenta, que permita pensar e refletir, de consumo mais moderado e essencial, de cidades com mais lugares e espaços abertos para a convivência e o repouso, diminuindo a vertigem e o ritmo de loucura do urbano. A ansiedade e o pânico tem a ver em certa medida com os resultados de uma vida cansada, ofegante, com cada vez mais pressão e estresse.
Os próprios relacionamentos afetivos e familiares são afetados pelo esvaziamento da comunicação interpessoal, presente e próxima. Domesticar a IA (Inteligência Artificial) ou a nossa participação na internet passa também por disciplinar e moderar o seu uso, priorizando em nossa agenda os amigos, os contatos humanos, as conversas gratuitas, que fortalecem vínculos e nos humanizam.
As férias, otempo ou estação do inverno, ou outras paradas de nossa vida ativa, devem ser momentos de reconquistar o sentido do ócio, que não se opõe ao negócio ou ao tempo útil, mas que o liberta de ser uma alienação ou adoecimento da nossa vida psíquica e emocional.
Viver mais devagar, com simplicidade e sem pressa, nos torna mais vivos e sensíveis, capazes de nos relacionarmos com mais profundidade com Deus, os irmãos e todas as criaturas. Como afirma, com sabedoria, o monge Anselm Grün que não vivamos apenas no fim de semana, mas que nossa vida possa respirar liberdade, alegria e paixão.
Deus seja louvado!
