Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Neste dia 29 de julho de 2026, a Arquidiocese de Natal celebra o centenário de nascimento de Dom Heitor de Araújo Sales, ocasião privilegiada para render graças a Deus pela vida de um pastor que marcou profundamente a história da Igreja no Rio Grande do Norte. Recordar seu centenário é uma oportunidade singular para reconhecer suas realizações como sacerdote, bispo de Caicó e arcebispo de Natal e, acima de tudo, para celebrar o ser humano que ele é, contemplando a grandeza de sua personalidade, a nobreza de seu caráter e a beleza de uma vida inteiramente dedicada a Deus e ao próximo. A maior obra de Dom Heitor talvez não esteja apenas nas instituições que organizou, mas, sobretudo, na maneira profundamente humana com que sempre acolheu e tratou as pessoas.
Sua trajetória ministerial é amplamente conhecida. Sacerdote desde 1950, doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, professor do Seminário de São Pedro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Escola de Serviço Social, foi bispo de Caicó entre 1978 e 1993 e arcebispo metropolitano de Natal de 1993 a 2003. No exercício do ministério episcopal, promoveu importantes iniciativas pastorais e administrativas: fortaleceu a formação do clero, reorganizou as estruturas diocesanas, implantou o dízimo, assegurou assistência médica e previdenciária aos sacerdotes, incentivou a formação acadêmica de seminaristas e presbíteros em Roma e apoiou decisivamente a expansão da vida contemplativa em nosso Estado, contribuindo, de modo especial, para a implantação do Carmelo Nossa Senhora do Sorriso e Santa Teresinha, em Natal. Essas realizações constituem um legado sólido e duradouro para a Igreja potiguar.
Entretanto, quem conviveu com Dom Heitor sabe que sua verdadeira grandeza nunca esteve apenas nas obras realizadas, mas na delicadeza de sua presença. Possui uma rara capacidade de acolher sem julgar, escutar sem interromper e aconselhar sem impor. Sua serenidade desarma conflitos, sua discrição inspira confiança e seu olhar transmite paz antes mesmo de qualquer palavra.
Dom Heitor jamais precisou elevar a voz para exercer autoridade. Sua liderança sempre brotou da mansidão. Une pessoas, aproxima gerações, constrói comunhão. Nunca alimentou divisões nem protagonismos. Seu lema episcopal, Unitate, Pace, Gaudium — Unidade, Paz e Alegria — não permaneceu apenas inscrito em seu brasão, mas tornou-se a expressão concreta de seu modo de viver.
Outro traço marcante de sua personalidade é a leveza. Mesmo diante das exigências do governo pastoral, nunca perdeu o bom humor, a elegância simples e a alegria serena. Conversar com Dom Heitor é encontrar alguém plenamente reconciliado com a vida. Sua inteligência refinada jamais obscureceu sua humildade; ao contrário, fez dele um homem acessível, cordial e profundamente humano.
Sua caridade manifesta-se, sobretudo, na atenção dedicada às pessoas. Padres, religiosos, seminaristas, autoridades, intelectuais e pessoas simples encontraram nele o mesmo respeito e a mesma gentileza. Lembra-se dos nomes, interessa-se sinceramente pela história de cada um e possui o raro dom de fazer cada pessoa sentir-se importante. E, verdadeiramente, um pastor segundo o coração de Cristo, cuja primeira linguagem sempre foi a proximidade.
Ao celebrar seus cem anos, homenageamos um pastor zeloso, um administrador competente, um intelectual brilhante e um homem que fez da bondade um verdadeiro estilo de vida. Num tempo frequentemente marcado pela pressa, pela polarização e pela dureza das relações, Dom Heitor continua a recordar-nos que a santidade também se manifesta na delicadeza, na escuta paciente, na palavra prudente, na alegria compartilhada e na caridade vivida no cotidiano.
