Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)

 

Tesouros sempre despertam interesse, curiosidade e alimentam a fantasia. Sejam os tesouros dos jogos de passatempo, os tesouros escondidos de civilizações passadas, os tesouros de navios que afundaram no mar, ou os tesouros que são pessoas, como diz a expressão familiar “tu és meu tesouro”. Tesouro não tem valor econômico e sentimental definido, pois depende de quem o procura ou encontrou. Jesus, na sua perspicácia de ensinar, ensina que Deus é como um tesouro. É um tesouro que existe e pode ser encontrado por acaso ou quando procurado (1 Reis, 3,5.7-12, Salmo 118(119), Romanos 8,28-30 e Mateus 13,44-52).  

Em sintonia com o Evangelho está a leitura do livro dos Reis. Deus oferece a Salomão, jovem rei, algo surpreendente: “Pede o que desejas, e eu te darei”. Parece aquelas fantasias da “lâmpada mágica” onde o gênio promete: “você tem três pedidos”. Se tivéssemos esta oportunidade, o que pediríamos? Sendo sinceros, é provável que não saberíamos com exatidão o que pedir. 

A atitude de Salomão é exemplar. Reconhece que herda o reino de seu pai Davi, de ser um adolescente que é incapaz de governar o povo. Por isso pede: “Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal”. Salomão pede um coração compreensivo. A palavra hebraica também pode ser traduzida por “um coração capaz de escutar”. Deus lhe concede um “coração sábio e inteligente”. Ele recebeu um tesouro. Ao fazer este pedido ele não estava pensando no seu próprio bem, mas no povo a ser governando, com isto o bem comum pôde ser construído. O exemplo de Salomão é válido para todos nós. Cada um de nós de certo modo é “rei”. Precisamos agir, tomar decisões, orientar outras pessoas para realizar o bem e evitar o mal. A consciência moral pressupõe a capacidade de ouvir a voz da verdade e sermos pessoas dóceis para seguir suas orientações.  

Na parábola Jesus diz que quem encontrou o tesouro do Reino dos Céus, por acaso ou porque estava procurando, precisa tomar decisões para tomar posse dele. Ensina que o afortunado “cheio de alegria, vai, vende todos os bens e compra aquele campo”. Estas breves palavras são um apelo à decisão e à responsabilidade. A alegria é força para decidir-se pelo Reino dos Céus, tesouro a ser vivido com coerência e transmitido. A tristeza bloqueia, mas a alegria movimenta para a decisão. Não basta procurar e encontrar, mas é necessário decidir e optar. Não é possível ficar com o que se tem e ao mesmo tempo apossar-se do tesouro descoberto. O motivo da decisão é a alegria, a paixão pelo tesouro. 

Deus é o tesouro que o cristão encontrou. A Igreja é constituída por aqueles que encontraram o tesouro. A decisão por Jesus relativiza as outras coisas. Torna a pessoa livre para seguir o mestre. As coisas que prendiam foram “vendidas”. A decisão por fazer os olhos brilhar pelo tesouro encontrado deve ser tomada cada dia. Cada dia são necessárias novas “vendas”. Os verbos, na parábola, estão colocados no presente, pois cada decisão se cumpre no presente. É preciso vender tudo, não jogar fora. É investir para adquirir algo que tem valor maior. Ele não perde nada, mas ganha tudo. 

Ao final da parábola Jesus diz que o discípulo é “como o pai de família que tira do se tesouro coisas novas e velhas”. O tesouro é Cristo. Dele sempre se tira coisas novas num mundo onde tudo passa e envelhece. O tesouro divino nunca deixa de brilhar e nem perde seu valor. Nós é que envelhecemos e podemos cobrir o seu brilho, nem por isso o tesouro deixa de existir. 

 

  

  

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