Com a multiplicação dos pães e a apresentação de Jesus como o pão da vida começa a revolução silenciosa de Cristo que transforma por dentro as pessoas e pode mudar o mudo.
Eis as conseqüências do gesto clamoroso de Jesus para os habitantes da Galiléia: “Queriam fazê-lo rei”. Era uma bela idéia que resolveria os problemas econômicos não só da Palestina de então, mas também de hoje. Assim pensava a gente, mas assim não pensava Jesus: retirou-se sobre a montanha, e ficou aí sozinho.
Não compreender Jesus é um risco que corremos também nós. Com Jesus caminhamos sempre sobre a beira do mistério. O Verbo de Deus feito homem vindo habitar entre nós, é uma realidade que ultrapassava a nosso compreensão, nossas expectativas, nossos programas.
Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus procurou explicar-se, mas obteve resultados não incorajantes. Os curiosos procuravam Jesus e olhavam-no como um prestidigitador estrepitoso para resolver os problemas econômicos. Jesus se retirou. Procuraram-no. Encontraram-no na sinagoga. Jesus lhes respondeu: “Vós me procuráveis porque comestes dos pães e vos satisfizestes. Procurai não o alimento que se perde, mas o que dura para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará”.
A gente procura o pão material, e Jesus fala do espiritual. Os chefes religiosos de Cafarnaum recordaram-se do maná que tinha nutrido os seus antepassados no deserto do Sinai. Disseram-lhe: “Nossos pais comeram o maná do deserto, como está escrito: “Foi-lhes dado de comer um pão do céu”.
São realidades longínquas de nossa experiência. Os botânicos classificam o maná como arbusto típico do deserto. Cresce em condições difíceis, útil para nutrimento em situações desfavoráveis. Consideravam os hebreus um portento, um grande dom de Deus. Maná quer dizer ‘o que é isso?’ Os hebreus consideraram o maná como pão do céu. No livro da Sabedoria, 16,20, o Senhor é agradecido assim: “Saciastes a fome do teu povo com o pão dos anjos”.
Os galileus, recordando-se do passado, disseram a Jesus: Moisés nos deu o maná, o pão do céu, e tu o que nos dás? Mas Jesus esclarece: “Moisés não vos deu o pão do céu, mas é o meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu”. Eis aqui o pão verdadeiro que o Pai vos dá hoje, o dá para a fome dos homens hoje.
Mas os galileus não tinham compreendido: “Senhor, dá-nos sempre este pão”. Então Jesus revelou a verdade escondida: “Eu sou o pão da vida; quem vem a mim não terá mais fome”. Com este modo explícito, mas tão obscuro, Jesus começava a preparar os seus discípulos para o mistério indizível da Eucaristia.
Para nós, depois de dois mil anos de reflexão, é menos difícil compreender. Sabemos: o Verbo encarnado queria tornar-se o “Deus conosco” para sempre, ficar conosco de modo visível e sensível sempre, e a Eucaristia foi a misteriosa, extraordinária modalidade por ele escolhida.
As multidões em torno de Jesus não compreendiam. Ficavam na escuridão mais absoluta. Ao término do discurso sobre o pão da vida, muitos de seus discípulos disseram: “Estas palavras são duras. Quem compreende?” E lhe voltaram as costas. Jesus olhando ao seu redor, encontrou somente os apóstolos, ainda eles transtornados.
Sem dúvida grande fadiga para distinguir o pão material daquele que nutre o espírito! Jesus na Última Ceia dirá: “Tomai e comei, isto é o meu corpo…” Pedro e os apóstolos acreditaram. Ao longo dos séculos sempre há no mundo tantas pessoas de fé em torno de Jesus. E continua a crescer o número.
Cada domingo, dia do Senhor, em tantas comunidades eclesiais os cristãos se encontram para fazer comunhão com o Senhor ressuscitado, e fazer comunhão entre si. Pessoas que diferentemente dos habitantes da Galiléia, aprenderam a diferença entre fome e fome, entre pão e pão. Terminada a missa nós, se participamos com fé, voltamos a nossas casas com idéias mais claras e com vontade mais decisiva, para um empenho de coerência cristã. Dizia Paul Claudel: “Quando tiveres Deus no coração, possuirás o Hóspede que não te dará mais repouso”. Sim, Jesus nos faz inquietos. Cura d’Ars: “Não sou digno de recebê-lo, mas tenho necessidade dele”.
Teresa de Calcutá: “O tabernáculo nos garante que Jesus plantou sua morada no meio de nós”.
