Ao escrever a Timóteo, Paulo está preso em Roma, e Timóteo não está mais em Éfeso. Estaria em algum lugar de fácil acesso a Trôade, onde Paulo tinha deixado um manto e alguns livros e pergaminhos. Marcos, o evangelista, está com Timóteo. Lucas estava com Paulo em Roma. Timóteo teve dificuldades na supervisão da Igreja em Éfeso por isso tinha se afastado. Paulo o chama a Roma, e que venha o mais depressa possível.
Uma certa falta de jeito parece se revelar em Timóteo no trato com os opositores. Ficar discutindo questões sem sentido não é educativo e gera brigas. Timóteo estava se metendo em brigas, o que não convém a um servo do Senhor. Quem está à frente da Igreja deve ser “manso para com todos, competente no ensino e paciente na tribulação”. Os opositores devem ser educados com suavidade. Deus lhes dará a conversão e o retorno ao bom senso.
Há, porém, alguma coisa um pouco mais séria na atitude de Timóteo. Paulo o exorta a apresentar-se a Deus como um homem provado e aprovado (2Tm 2,15). Um apóstolo apresenta-se a Deus e coloca-se a seu serviço como um homem comprovado. Tal apresentação significa uma oferenda total de si mesmo a Deus, que a pessoa se volta para Deus depois de ter recebido um dom. Por isso Paulo escreve no início da carta: “Reaviva o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos”. O dom leva a conversão. Não recebemos o dom como resultado de nosso esforço pessoal de conversão. Pensar assim é pensar como Pelágio, um monge que viveu entre 350 e 425 e foi condenado como herege em 418 no Concílio de Cartago. Seu grande opositor foi Santo Agostinho. O grande dom é o Verbo encarnado, que veio até nós assim como nós somos. Sua proximidade, porém, nos impulsiona ao retorno. O dom inicial de Deus que prova e aprova torna o homem comprovado para a pregação do Evangelho. Timóteo recebeu um Espírito de força e não de medo, um espírito de amor e de autodomínio. Timóteo recebeu uma aprovação divina antecedente para não se envergonhar do testemunho do Evangelho e ensinar a palavra da verdade. A comprovação de Deus torna a pessoa apta para a transmissão segura da verdade do Evangelho. É um carisma de força e de autenticidade, mas que não dispensa o esforço pessoal.
Estaria Timóteo com vergonha do ministério ou com medo do sofrimento? Não estaria mais aplicado no ensino das Escrituras? Teria perdido o bom senso e se enredado em questiúnculas? “Seja sóbrio em tudo, escreve-lhe Paulo, suporte o sofrimento, faça o trabalho de um evangelista, realize plenamente o seu ministério”.
É nessa ocasião que Paulo escreve o resumo de sua vida de forma magnífica e estimulante para todos nós: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”. Paulo sabe que seu fim se aproxima. Desta prisão ele sairá para a Vida. Seu exemplo pode servir de estímulo a Timóteo e a cada cristão em particular. A vida de Paulo foi uma luta constante, mas positiva. Foi um bom combate. Como os atletas que correm, ele participou da corrida e atingiu o fim. E guardou a fé. Sabemos o que a fé significa para Paulo, em Abraão e no último de seus evangelizados.
Paulo chama Timóteo para Roma. Seu lugar não é estar à frente de uma Igreja. Venha então trabalhar com Paulo, e traga Marcos consigo. Paulo não abandona o amigo que gerou para Cristo e sobre quem impôs as mãos. Sabe que ele não está dando certo em Éfeso e por isso o quer a seu lado. Paulo não encobre a verdade. Paulo mantém viva a caridade.
Dizem muitos comentaristas que Paulo escreveu a segunda carta a Timóteo, e não a Primeira, nem a carta a Tito. Essas três são chamadas de cartas pastorais. Os cristãos conheciam a Segunda Carta a Timóteo. Quando surgiram a Primeira e a carta a Tito elas foram aceitas como paulinas exatamente porque já se conhecia uma carta a Timóteo, que é a Segunda. A Carta a Tito e a Primeira a Timóteo são parecidas, mas diferem da Segunda a Timóteo. Somente a Segunda pode ter sido escrita por Paulo. As outras foram escritas por algum discípulo seu.
