“A justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. Um Estado, que não se regesse segundo a justiça, reduzir-se-ia a uma grande organização de ladrões, como disse Agostinho uma vez: « Remota itaque iustitia quid sunt regna nisi magna latrocinia? »”. “( n. 28)

A segunda parte da primeira carta encíclica de Sua Santidade Bento XVI tem esse título: “Caritas – a Prática do Amor pela Igreja enquanto Comunidade de Amor”. Nessa parte o Santo Padre, antes de estender-se sobre a questão, apresenta algumas reflexões sobre Fé e Política. Nesse artigo vai um pouco da riqueza de seu ensinamento sobre esse particular. Ele nos recorda que “a norma fundamental do Estado deve ser a busca da justiça e que a finalidade de uma justa ordem social é garantir a cada um, no respeito do princípio da subsidiariedade, a própria parte nos bens comuns” (n. 26).

É, pois, missão do Estado a implantação da justiça na vida da sociedade através de leis e de iniciativas que garantam para todos uma vida digna. A Política se revela então como uma dimensão fundamental da existência humana, pois ela diz respeito ao empenho da sociedade em fazer acontecer de fato o bem comum, que “consiste no conjunto de todas as condições de vida social que permitam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana” conforme ensinamento do saudoso Papa João XXIII. É para isso que existe o Estado e é essa a razão de ser dos três poderes da República: a busca do bem comum pela garantia efetiva dos direitos fundamentais do ser humano desde sua concepção. São “poderes” não porque dominam sobre os cidadãos, mas porque estão autorizados pelo conjunto da sociedade a procurar os meios que garantam a consecução do bem integral de todos os seus membros. A justiça é a grande regra para o funcionamento dos “poderes” da República. A autonomia, o respeito e a comunhão entre os três poderes são de fundamental importância para o bom funcionamento da sociedade.

A hipertrofia de qualquer um desses poderes destrói a democracia e prejudica enormemente o bem comum. Mas, quando a corrupção começa a se infiltrar em todos os poderes da República, a Nação corre perigo de desagregar-se. Há um provérbio latino que diz assim: “corruptio optimi pessima”, em tradução literal: “a corrupção do ótimo é péssima”.  Uma coisa boa quando se estraga é ruim. Uma coisa muito boa – ótima – quando se estraga é muito ruim, é péssimo, traz enormes prejuízos para as pessoas e para a sociedade. A Política é coisa muito boa, está a serviço da justiça: “A justiça é o objetivo e, consequentemente, também a medida intrínseca de toda a Política. A Política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objetivo estão precisamente na justiça, e esta é de natureza ética.”(n. 28). Nosso país precisa salvar a Política da corrupção. Isso só será possível mediante um empenho ético em que as pessoas assumam ser honestas não apenas em alguns aspectos de sua vida, mas na integralidade de sua existência.

O respeito por si e pelos outros, o amor ao próximo e a noção, transformada em comportamento, do que é bom ou mau no conjunto da existência humana, a experiência vivida da solidariedade, em âmbito planetário, com todos os seres humanos de qualquer nação, religião ou cultura, tudo isso são valores que devem permear toda a vida da sociedade, começando na família, passando pela escola e penetrando o vasto universo da vida social e  tornando-se, enfim, a alma da Política.  Essa é a razão por que a Igreja não pode se ausentar do empenho pela justiça social que é essencialmente um empenho político. A Igreja o faz, entretanto, dentro do horizonte de sua missão específica conforme nos recorda o santo Padre: “a Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela Política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem” (n. 28). É por isso que a Igreja não tem partido político e nem, enquanto Igreja, apóia tal ou tal partido, tal ou tal candidato. Ela orienta e estimula a participação política de todos bem como sua militância político-partidária e oferece critérios éticos de avaliação das ideologias e dos programas políticos. Vivemos um momento político difícil em nosso país. Somos todos convidados a salvar a Política da corrupção, devolvendo-lhe a dignidade e o respeito que ela merece.

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

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