Dom Fernando, em casa

José Américo de Almeida lembrava em “A Bagaceira”: “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta”. Todos entendem o sentido da afirmação do escritor e político paraibano. Cada um sabe, por experiência, que a viagem de ida está pontilhada de incertezas, dúvidas e interrogações, no tocante aos caminhos da geografia, dos relacionamentos sociais e das expectativas profissionais. Na verdade, a ida é sempre mais difícil do que a volta. Isso é válido pra quem faz uma viagem, com a passagem de volta já adquirida, mas, sobretudo, quando alguém se depara com o desconhecimento em torno do amanhã. O grande desafio da ida acontece quando está em jogo a busca da sobrevivência e, por isso, as pessoas se lançam na aventura das suas conquistas e realizações. A tranquilidade da volta se dá quando a pessoa sabe que a sua presença refaz esperanças e restabelece convívios que foram, temporariamente, interrompidos. Ida e volta, portanto, têm linguagens diferentes na vida das pessoas, em termos de sentimentos, projetos e conquistas. Muitas vezes, a ida é marcada pela tristeza, enquanto a volta, quase sempre, é alimentada pela alegria. Por sinal, na Sagrada Escritura também se encontra essa experiência na vida do povo de Deus. A dura escravidão dos hebreus, no Egito, foi a razão da difícil e longa epopeia do Êxodo para a terra prometida, cumprindo-se, assim, o juramento de Deus aos patriarcas e seus descendentes. O salmista, por sua vez, canta a vivência do agricultor: “Quando vai, vai chorando, levando a semente para plantar; mas quando volta, volta alegre, trazendo seus feixes.” (Sl 126,6)

Dom Fernando Saburido, embora muito bem realizado como pastor da Igreja diocesana de Sobral, sabendo que não se perde na volta, chega à Arquidiocese de Olinda e Recife; não deixa de nele “renascer” a disposição de servir ao rebanho de suas origens. Em sua ida a Sobral, experimentou o desafio da missão que a Igreja lhe confiou; voltando, tem a consciência do dever cumprido. Volta com as melhores disposições de servir a essa Igreja onde tem suas raízes humanas e espirituais. Volta para colher frutos de qualidade porque soube plantar sementes selecionadas no viveiro da amizade, concórdia e diálogo. Volta para ser uma voz em favor da vida, da dignidade e da justiça, em seu diálogo com a sociedade civil e com os poderes politicamente constituídos no Estado de Pernambuco e nos Municípios compreendidos no território de sua jurisdição eclesiástica.

Em sua reinserção na Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Fernando não encontra dificuldades porque está em casa e conhece o espaço sociológico e o ambiente humano de seu trabalho ministerial; sabe, sobretudo, que contará com a colaboração pastoral do clero, do universo religioso e das lideranças leigas. A satisfação de seus arquidiocesanos, do momento do anúncio de sua nomeação ao dia de sua posse, como Arcebispo de Olinda e Recife, é uma gratificante sinalização de acolhimento e apoio ao seu trabalho. Dom Fernando vem com a certeza da felicidade dos Bispos Sufragâneos das Dioceses da Província Eclesiástica de Olinda e Recife, em razão dos vínculos fraternos da colegialidade episcopal; por sua condição de Metropolita, tecerá a unidade e a comunhão pastorais nestas terras pernambucanas; esta é a certeza das Igrejas Sufragâneas. Dom Fernando retorna ao Regional Nordeste 2 da CNBB, com o qual sempre esteve identificado, desde sua eleição episcopal, no ano 2000, com a certeza de ter a acolhida dos irmãos Bispos das dezenove Igrejas que estão localizadas nos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Que Dom Fernando chegue a esse tempo e lugar de sua vida com o olhar prospectivo e esperançoso de João Paulo II, às vésperas do Terceiro Milênio: “No início deste novo século, o nosso passo tem de tornar-se mais rápido para percorrer as estradas do mundo. As sendas, por onde caminha cada um de nós e cada uma de nossas Igrejas, são muitas, mas não há distância entre aqueles que estão intimamente ligados pela única comunhão, a comunhão que cada dia é alimentada à mesa do Pão eucarístico da Palavra de vida.”

Por tudo isso, a Arquidiocese de Olinda e Recife, a Província Eclesiástica e o Regional Nordeste 2, em oração, proclamam com o Salmista: “Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Sl 118, 26)

Dom Genival Saraiva de França

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