Desta vez o Papa foi parar lá na Austrália. Sua idade exige cuidados especiais, ainda mais ao fazer viagens intercontinentais. Se ele aceitou o convite para ir até aquele distante país, deve ter tido motivos muito fortes. O mais evidente é encontrar-se com os jovens que participam de mais uma “jornada mundial”. Assim ele dá continuidade à tradição inaugurada por João Paulo II, que por sua vez expressava a preocupação da Igreja em se aproximar dos jovens, incentivando-os a reencontrarem os valores do Evangelho em meio a tantas solicitações que o mundo lhes oferece hoje.
Mas a viagem do Papa à Austrália nos permite perceber outra preocupação constante deste pontificado. Trata-se de restabelecer as relações entre fé e razão. Bento VI insiste em mostrar como elas podem conviver em harmonia, integrando uma compreensão mais adequada da realidade, em que tanto a fé como a razão entram com sua contribuição própria, como duas azas que levam ao encontro da verdade, como disse João Paulo II em sua encíclica Splendor Veritatis.
O fenômeno que procura banir a fé, ou reduzi-la a mera atitude subjetiva, sem lhe reconhecer direito de cidadania, se chama secularização. A Austrália é o país campeão em secularização. As estatísticas assim o comprovam. Basta conferir a alta porcentagem dos seus habitantes que afirmam não terem nenhuma religião.
Pois bem, se olhamos com atenção a agenda dos acontecimentos eclesiais deste ano, nos damos conta de um fato que é bem mais do que mera coincidência. A Igreja marcou a jornada mundial da juventude para a Austrália. E marcou o Congresso Eucarístico Internacional no Canadá. Canadá e Austrália, os dois países em estado mais adiantado de secularização. Em ambos, a Igreja quis marcar presença, com a jornada mundial da juventude que se conclui neste domingo em Sidney, e com o Congresso Eucarístico já realizado no mês passado em Quebec.
Para reaproximar fé e razão é preciso incentivar o diálogo. A Igreja quer proporcionar esta oportunidade, protagonizando iniciativas que visam criar contextos humanos favoráveis à abertura do espírito, à convivência humana, e ao confronto salutar de experiências de fé, em que os valores religiosos não só mostram sua validade intrínseca, mas vêm ao encontro dos problemas e contribuem para solucioná-los. Basta constatar a influência positiva das práticas religiosas entre os jovens, ajudando-os a superar o vazio existencial, com suas conseqüências negativas, em que facilmente caem quando desprovidos dos horizontes mais amplos que a fé proporciona.
Tanto o Canadá como a Austrália oferecem algumas cifras que fazem pensar. Eles possuem algumas semelhanças geográficas e culturais, que podem ser percebidas melhor confrontando-as com o Brasil.
Ambos são países de vasto território, e pouca população. O Canadá é maior que o Brasil, tem nove milhões de quilômetros quadrados. Mas só tem 32 milhões de habitantes, bem menos que o Estado de S. Paulo, que já ultrapassa os quarenta milhões. E a Austrália é quase do tamanho do Brasil, chega a sete milhões e seiscentos mil quilômetros quadrados. Com toda esta extensão, só tem 21 milhões de habitantes, metade do Estado de S. Paulo.
Este fato tem sua explicação, pelas vastíssimas regiões frias do Canadá, e pelo amplo deserto na Austrália. Mas isto não explica tudo. A taxa de natalidade é baixíssima, em ambos os países. Precisam contar com o aporte dos migrantes estrangeiros. No Canadá são 17 % da população. Na Austrália são 23%. Ambos os países praticam uma política migratória seletiva, visando disciplinar a entrada de estrangeiros, só liberando os que vão contribuir com sua economia.
E’ preocupante a situação de países que experimentam uma saturação econômica, ao lado de uma incapacidade demográfica que encurta suas perspectivas de vida. Nestes casos, é sempre salutar um banho de solidariedade mundial, como o proporcionado pelo Congresso Eucarístico e pela jornada da juventude. Para que não aconteça que o vazio existencial de suas populações, desprovidas da utopia da fé, seja mais angustiante e mais profundo que as vastas pradarias do Canadá ou as extensas areias do deserto da Austrália.
Sem a fé, perde-se o sentido da vida, e perde-se a própria vida, como Cristo adverte, e como a história comprova.
