Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Estamos celebrando o XXIX Domingo do Tempo Comum. Na liturgia deste domingo, a Palavra de Deus nos fala sobre a oração. Mais ainda: manda-nos “rezar sempre, sem jamais desistir.” O Reino de Deus sofre violência desde o início do mundo! Mas Deus, pacientemente e com poder, defende sua obra e socorre o seu povo com poder e decisão. O Reino de Deus vai, aos poucos, triunfando.
Na primeira leitura (Ex 17,8-13), os amalecitas, descendentes de Esaú, procuram impedir o avanço do povo de Israel, mas Deus ordena a guerra, e Moisés, de braços erguidos, pede a vitória de Josué sobre o inimigo. Essa leitura nos mostra Moisés de braços abertos, como os de Cristo na cruz, intercedendo por seu povo. Assim como Moisés, também Cristo é o nosso intercessor e mediador junto do Pai: “Enquanto Moisés conservava a mão levantada, Israel vencia; quando baixava a mão, vencia Amalec.”
Da mesma forma, Cristo intercede continuamente junto ao Pai por nós: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça.” (Lc 22,31). Na Última Ceia, o Senhor, mais uma vez, rezou por nós: “Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que, por meio da sua palavra, hão de crer em mim.” (Jo 17,20).
Que consolo é saber que o Senhor Jesus continuamente ora por nós! Se nos deixarmos invadir por essa oração de Jesus, nossa fé não desfalecerá, nossa vida não desmoronará, nossa existência não sucumbirá. Se Pedro caiu e negou Jesus, foi porque confiou em si mesmo, em suas próprias forças, e não na graça da oração de Cristo.
Na segunda leitura (2Tm 3,14–4,2), o Apóstolo Paulo tem a certeza de sua morte iminente e, por isso, entrega seu testamento espiritual a Timóteo. Timóteo possuía uma sólida formação herdada de sua avó, de sua mãe e do próprio Apóstolo Paulo. Ele sabia que a Palavra de Deus instrui, corrige e sustenta a fé do cristão ao longo de sua caminhada.
O Evangelho (Lc 18,1-8) realça três aspectos da oração: a oração como expressão da fé em Deus; a presença da oração em toda a vida da pessoa; e a perseverança nela. Jesus narra a parábola do juiz injusto e da viúva. Trata-se de um juiz que “não temia a Deus nem respeitava os homens” e que nada queria saber de uma pobre viúva que recorria a ele exigindo justiça. Por fim, o juiz cede às suas incessantes súplicas para que ela não o continue a importunar. Deste exemplo, Jesus tira uma lição: fazer-nos compreender que Deus, muito melhor do que o juiz injusto, escutará as súplicas de quem a Ele recorre confiadamente.
Primeiro, a oração nos abre para Deus; faz-nos experimentar, com todo o nosso ser — sentimentos, inteligência, afeto, alma e corpo —, que dependemos de Deus, que Ele está presente no mais íntimo da nossa vida, da nossa história, do nosso mundo. É na oração que percebemos vivamente que Ele não é somente o Deus de longe, mas também o Deus de perto. Nenhuma outra realidade deste mundo tem a capacidade de nos colocar imediatamente na presença de Deus como a oração. Se não rezarmos, Deus irá deixando de ser Alguém para ser apenas algo; deixaremos de experimentá-lo como Pessoa e passaremos a percebê-lo simplesmente como uma ideia fria, estéril e distante.
Em segundo lugar, a oração feita em nome de Jesus — isto é, com os sentimentos e atitudes de Jesus — nos faz enfrentar todos os desafios da vida com paz, liberdade e maturidade. Se rezei, se supliquei, se me coloquei nas mãos de Deus, aconteça o que acontecer, sei que posso acolher tudo confiando no seu amor. Foi assim a oração de Jesus: buscava, simplesmente e em tudo, a vontade do Pai; e por isso o fracasso e a cruz não o destruíram. Foi ouvido — Ele mesmo dissera: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves!” (Jo 11,41s) —; pois bem, mesmo diante da cruz e da morte, o Filho permaneceu em paz, abandonado amorosamente nas mãos do Pai. A oração faz isso conosco: elimina nosso temor e nos lança nos braços de Deus.
Em terceiro lugar, a oração quebra nosso orgulho, nossa autossuficiência, o engano de pensar que somos capazes de algo por nós mesmos. Rezando, experimentamos a alegria indizível de sermos crianças nos braços do Pai.
O Senhor explica, nesta parábola, que há três razões pelas quais as nossas orações são sempre ouvidas: primeiro, a bondade e a misericórdia de Deus, tão diferentes das disposições do juiz ímpio; depois, o amor de Deus por cada um de seus filhos; e, por fim, o interesse que demonstramos perseverando na oração. Ele nos dará o que for necessário e importante.
A oração dá força para os grandes ideais, para manter a fé, a caridade, a pureza e a generosidade; dá ânimo para sair da indiferença e da culpa, caso se tenha cedido à tentação ou à fraqueza; dá luz para ver e julgar os acontecimentos da própria vida e da história na perspectiva salvífica de Deus e da eternidade.
Por isso, não deixemos de orar! Não passe um dia sequer sem que tenhamos rezado um pouco! A oração é um dever, mas também é uma grande alegria, porque é um diálogo com Deus por meio de Jesus Cristo. “Cada domingo, a Santa Missa; e, se vos for possível, alguma vez também durante a semana; cada dia, as orações da manhã e da noite, e nos momentos mais oportunos!” (São João Paulo II, Aos Jovens, 14/03/1979).
Ao terminar a parábola, Jesus acrescenta: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (Lc 18,8). Porventura encontrará uma fé semelhante à da viúva? Trata-se de uma fé concreta: a fé dos filhos de Deus na bondade e no poder do seu Pai do Céu. O ser humano pode fechar-se a Deus, não sentir necessidade d’Ele, procurar por outros caminhos a solução para suas deficiências — e, então, jamais encontrará os bens de que realmente necessita.
